Milton Hatoum defende a memória como pilar da literatura e critica saudosismo autoritário na Flipelô

Milton Hatoum defende a memória como pilar da literatura e critica saudosismo autoritário na Flipelô
Fonte da imagem: Agência Brasil


Em meio à programação da 10ª Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em Salvador, o escritor Milton Hatoum voltou a um tema que atravessa sua obra desde o romance de estreia: a memória. Para o autor manauara, a memória não é um arquivo parado no tempo, mas uma força que ganha sentido quando o passado é trazido ao presente. A declaração foi dada a jornalistas antes de sua participação em uma mesa no Museu Eugênio Teixeira Leal, na capital baiana.

Hatoum, que recentemente tomou posse na Academia Brasileira de Letras, participou do encontro intitulado A Palavra, a Memória e o Tempo: um Encontro sobre Literatura, com mediação de Rodrigo Casarin. A presença do escritor lotou o auditório do museu, em um dos momentos mais aguardados da programação literária.

O novo livro de Hatoum, Dança de Enganos, publicado no final do ano passado, encerra a trilogia O Lugar Mais Sombrio, que reúne ainda A Noite da Espera e Pontos de Fuga. Na obra final, a voz principal é de Lina, mãe de Martim, protagonista dos volumes anteriores. A partir das memórias e anotações dela, o romance expõe dores, impactos e traumas de famílias dilaceradas pela ditadura militar brasileira.

“A memória na literatura é, vamos dizer, fundamental. Ela é uma espécie de musa tutelar dos escritores. Mas a memória não é algo que está cristalizado no passado. A memória só faz sentido na literatura – e eu acho que na própria vida – quando você traz o passado para o presente e ela adquire um significado mais forte. Porque tudo que nós vivenciamos hoje tem a ver com o nosso passado, não apenas recente, mas distante também”, afirmou Hatoum.

Na trilogia, o autor aborda dramas familiares durante o período de exceção, mas faz questão de esclarecer que a ditadura não é o tema central dos romances. “A trilogia O Lugar Mais Sombrio fala basicamente disso, de um grupo de jovens, de personagens jovens, que, enfim, passaram a infância, a juventude e uma parte da vida adulta durante um período de opressão, de autoritarismo, de brutalidade, de repressão e de censura. Isso é um tema tratado nesses três romances, mas não é o tema principal”, disse.

O fio condutor, segundo o escritor, é a relação familiar. “E esse último volume é o livro da mãe, que é um livro de memórias, justamente em que ela praticamente fala sobre a família, sobre ela e descobre coisas muito surpreendentes – e por isso o título é Dança de Enganos. Ela viveu durante um período da vida dela movida por enganos, por falsidades. E então ela descobre coisas que só mesmo essa presença da memória faz com que ela tenha consciência do que ela é”, explicou.

Hatoum também revelou que a trilogia nasceu de um impulso de “vingança” contra o que ocorreu no Brasil. “Quem da minha geração participou do movimento estudantil ou participou ativamente da luta contra a ditadura, quem não perdeu amigos ou não teve um amigo preso, foi submetido à tortura”, afirmou. Para escrever os livros, ele recebeu diários e relatos de amigos que foram presos e torturados. “E eu li muitas vezes chocado porque são relatos muito duros, de uma crueza assim incrível e impressionante. Mas eu usei muito pouca coisa desse material que eu li, porque eu queria, a partir do que li, inventar. Porque esse é o grande pilar do romance, a imaginação.”

O escritor contou ainda que parte da trilogia foi reescrita em resposta ao avanço de discursos autoritários no país. “Foi o momento em que eu encontrei para também me posicionar. Quer dizer, não como um texto de denúncia porque eu não aprecio muito isso, nem também de uma forma didática, mas eu mudei muita coisa sobretudo entre o segundo e o terceiro volumes. Eu reescrevi muitas coisas em função dessa catástrofe política que se abateu sobre o Brasil. Como é que eu vou definir essa gente? São absolutamente facínoras.”

Como antídoto para o momento atual, Hatoum defendeu a empatia. “A empatia também serve para a crise que nós estamos vivendo. Porque ela é exatamente o contrário, o oposto do egotismo. Uma pessoa empática integra as suas necessidades básicas ou vitais com o coletivo, com a necessidade dos outros. E é isso que falta”, refletiu.

Durante a conversa com o público, o escritor também reforçou a importância da educação pública. Para ele, o desmonte da escola pública começou ainda na ditadura militar e precisa ser revertido. “Isso seria fantasticamente um ato patriótico, de formar cidadania e de dar condições de igualdade a todos da escola pública”, disse. Ele lembrou da professora que o alfabetizou, Maria Luiza Freitas Pinto, citada em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. Hatoum contou que ela guardou sua primeira redação e apareceu na fila de autógrafos de seu primeiro livro, em 1989, em Manaus. “Ela morreu aos 104 anos. E até os 100 anos, ela ia aos lançamentos do meu livro.”

A Flipelô começou na última quarta-feira (5) e termina neste domingo. O escritor, que é o primeiro amazônida a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, segue com a rotina de palestras, leituras e escrita, como faz há mais de 35 anos.

Fonte: Agência Brasil.

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