
A diretora executiva do Fundo Brasil, Allyne Andrade, defendeu que os recursos destinados a soluções climáticas cheguem efetivamente a povos indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais. Em entrevista à Agência Brasil, ela destacou que esses grupos, embora sejam os mais afetados pela crise do clima, também são os que mantêm os territórios mais preservados no país.
À frente da fundação desde maio, Allyne afirmou que a instituição atua para preencher lacunas de financiamento, oferecendo não apenas recursos, mas também apoio técnico e programático. Em 2023, o Fundo Brasil criou o programa Raízes, linha de justiça climática voltada a povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. A iniciativa seleciona projetos por meio de editais públicos, com decisão participativa de comitês de especialistas, e também prevê aportes emergenciais para proteger lideranças em territórios ameaçados e para responder a extremos climáticos, como as enchentes no Rio Grande do Sul.
A fundação, que completa 20 anos em 2026, já doou R$ 141 milhões a 2,5 mil iniciativas ao longo de sua história. Somente em 2025, foram R$ 32 milhões destinados à sociedade civil organizada, um aumento de quase 20% em relação ao ano anterior. Pelo Raízes, as doações diretas desde 2023 somam mais de R$ 6 milhões.
Além da pauta climática, o Fundo Brasil atua em outras frentes de direitos humanos, como trabalho digno e combate ao trabalho análogo à escravidão, direitos digitais, enfrentamento ao racismo, defesa de pessoas LGBTQIAPN+, proteção a defensores de direitos humanos, combate à violência de gênero e justiça criminal, incluindo a redução de prisões provisórias e o combate à tortura no sistema prisional.
Criado por Abdias do Nascimento, Margarida Genevois, Rose Muraro e Dom Pedro Casaldáliga, o Fundo Brasil é uma fundação independente que financia organizações protagonizadas por pessoas diretamente afetadas por violações de direitos.
Allyne Andrade, advogada, doutora e especialista em Teoria Crítica, tem origem no movimento social antirracista e foi selecionada em 2020 para o cargo de diretora executiva adjunta. Ela disse que espera, à frente da instituição, aproximar-se dos movimentos sociais e contribuir para uma comunicação estratégica em defesa da democracia, com direitos humanos repensados a partir das cosmovisões dos povos tradicionais. Para celebrar os 20 anos, o Fundo Brasil planeja uma conferência reunindo ativistas, pesquisadores e iniciativa privada para discutir os desafios do país na área e os rumos da filantropia.
Análise WeekNews: A fala de Allyne Andrade evidencia uma mudança na percepção sobre o papel das comunidades tradicionais no debate climático: elas deixam de ser vistas apenas como vítimas e passam a ser reconhecidas como guardiãs de territórios preservados. O crescimento das doações do Fundo Brasil, especialmente pelo programa Raízes, sugere que a filantropia independente tende a ocupar espaços onde o financiamento público e privado ainda não chega de forma estruturada.
Fonte: Agência Brasil.
