Jovens buscam ajuda para dependência de bets; um em cada cinco começa a apostar aos 11 anos




Jovens buscam ajuda para dependência de bets; um em cada cinco começa a apostar aos 11 anos
Fonte da imagem: Agência Brasil


A dependência de apostas online tem levado cada vez mais jovens a procurar grupos de apoio no Brasil. Integrante da irmandade Jogadores Anônimos, Luiz Carlos* relata que já é comum encontrar adolescentes na faixa de 14 anos em busca de ajuda para conter o vício.

“Hoje quem chega à irmandade é muito jovem. Já chegou até de 14 anos acompanhado pelo psiquiatra. Mas chegam jovens de 15, 16, 19, 20 anos, até 30, 35 anos”, conta.

O caso de Gustavo Pereira ilustra a dimensão do problema. Hoje com 24 anos, ele começou a apostar online aos 18 e, em seis anos, perdeu cerca de meio milhão de reais. “Ganhava muito bem na época, já fiz R$ 10 mil virarem R$ 300 mil, já fiz bancas inimagináveis, fiz R$ 10 mil virarem R$ 200 mil, R$ 240 mil, e perdi tudo. Então o dinheiro começou a perder valor para mim, eu comecei a perder a dimensão do dinheiro, na minha conta não tinha todo aquele valor, mas lá na bet tinha, e o vício faz isso, te enche de ganância”, diz.

Há cerca de dois meses sem apostar, Gustavo tenta recomeçar a vida vendendo café nas ruas de Lages (SC). Ele mantém um perfil no Instagram onde publica conteúdos sobre o trabalho e sobre como enfrenta o vício. “Eu dormia pensando em apostar e acordava pensando em apostar. Nestes seis anos, eu enfrentei muitas coisas, mudei com a depressão, uma síndrome do pânico, e graças a Deus eu me libertei disso”, relata.

Especialistas apontam que a facilidade de acesso às plataformas pelo celular amplia a exposição dos jovens. Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) mostram que uma em cada cinco pessoas no mundo começa a apostar em jogos online até os 11 anos de idade, proporção que chega a 78% a partir dos 12 anos. Os números são de 2021 e continuam atuais.

Pesquisa deste ano divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educação, feita com 1.912 estudantes dos ensinos médio e fundamental, indica que 9,5% fizeram a primeira aposta aos 11 anos. Quase metade dos entrevistados no 3º ano do ensino médio já apostou.

Estudo do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) mostrou que canais voltados ao público infantil exploram a falta de maturidade financeira de crianças e adolescentes para promover apostas ilegais. O mesmo instituto concluiu que pelo menos 24 milhões de brasileiros apostaram em bets em 2024, sendo que quase metade ficou endividada.

Para a psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, o jovem é mais vulnerável porque o cérebro ainda está em construção. Enquanto o núcleo ligado ao prazer e à dopamina funciona em ritmo acelerado, as regiões que controlam impulsos e avaliam riscos só amadurecem aos 20 e poucos anos. “O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte”, afirma.

O diretor do IBICT, Tiago Braga, destaca que apostar não é investimento, mas gasto. “Quanto mais você aposta ou quanto mais você gasta recursos com a aposta, menos você terá recursos para o seu futuro. E isso a gente está falando de questões do cotidiano como aluguel, comida, vestuário, educação”, diz. Ele também aponta o risco de ideação suicida associada ao endividamento por jogo.

Os efeitos chegam ao ensino superior. Pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) aponta que 34% dos entrevistados afirmaram que precisariam parar de gastar com apostas para iniciar uma graduação em 2026. Entre os que já estão no ensino superior, 14% relataram ter atrasado mensalidades ou trancado o curso por causa dos gastos com bets. Outros 34% deixaram de investir em cursos, idiomas ou outras formas de aprendizado, e 33% abriram mão de academia ou atividades físicas.

Para o diretor-geral da ABMES, Paulo Chanan, os dados são um alerta, mas não se pode generalizar o comportamento dos jovens. Segundo ele, para uma parcela relevante deles o dinheiro destinado às apostas interfere diretamente em decisões ligadas à educação, criando barreira adicional ao acesso e à permanência no ensino superior. Chanan defende atuação conjunta que envolva educação, saúde, comportamento, regulação e políticas públicas, e afirma que as instituições de ensino podem contribuir com informação, prevenção, orientação, acolhimento e encaminhamento. O estudo da ABMES não avaliou indicadores de desempenho acadêmico nem de saúde mental.

A dependência também atinge quem conviveu com outras formas de jogo. Luiz Carlos, de 71 anos, lembra que, quando começou a jogar, na década de 1980, não existia celular e o vício eram as máquinas de videopôquer. “Saía do jogo 4h, 5h da manhã, socando o painel do meu carro, me machucando, chorando, prometendo que nunca mais voltaria, e no outro dia eu estava lá, jogando novamente”, conta. “Graças a Deus eu não jogo hoje, porque, se eu jogasse, estava perdido. Na minha época, a gente tinha que sair de casa para jogar. Hoje não precisa mais, você carrega um cassino dentro do seu bolso.”

Luiz Carlos está há 15 anos sem jogar. Outros frequentadores da irmandade Jogadores Anônimos, como Rogério* (53 anos), Rodrigo* (47) e Carla Xavier* (41), também relatam recuperação. Carla e Rogério estão há mais de um ano longe do vício, e Rodrigo, há seis meses. Segundo Carla, o grupo tem recebido principalmente pessoas que já perderam tudo. “[Elas] já não têm mais onde pedir ajuda. Então já estão desacreditadas da vida, já estão pensando em suicídio, estão devendo para um monte de gente. Essas são as pessoas que procuram o grupo.

Fonte: Agência Brasil.

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