
A Galeria Lacerdine de Arte, no bairro Higienópolis, em São Paulo, reúne desde o dia 21 de setembro a exposição “A alfabetização do Olhar – um ato de amor e responsabilidade”, que homenageia o padre Júlio Lancellotti e a atuação da Pastoral do Povo da Rua. A mostra é gratuita e segue em exibição até novembro.
Idealizada pelo artista plástico Geraldo Lacerdine, a exposição reúne mais de 100 fotografias, além de textos, instalações e vídeos. Também integram o acervo prêmios e reconhecimentos recebidos por padre Júlio ao longo de sua trajetória.
As imagens são assinadas pelos fotógrafos Daniel Camargo Kfouri, Fernando Jenzen, Tr3ze e Victor Angelo Caldini e registram o trabalho de Lancellotti desde o período da pandemia de covid-19, em 2020.
Segundo o curador, a exposição só foi realizada porque o padre impôs uma condição. “Quando a gente propôs a exposição para o padre Júlio, a primeira coisa que ele falou foi o seguinte: se vocês querem fazer uma homenagem a mim e ao meu trabalho, façam uma exposição em que as pessoas na situação de rua sejam o centro, e não eu”, contou Lacerdine.
O próprio padre explicou à Agência Brasil o conceito que dá nome à mostra. Para ele, a alfabetização do olhar busca ensinar o espectador a enxergar as pessoas em situação de rua não como “anjos ou demônios”, mas como seres humanos reais e complexos.
A proposta dialoga com a forma como a sociedade costuma se relacionar com essa população. Muitas vezes, segundo a exposição, a reação é de distanciamento: as pessoas desviam o olhar, correm ou atravessam a rua, como se a população de rua não existisse.
A curadoria distribui as obras de modo a criar proximidade entre visitantes e retratados. Algumas fotografias enfatizam as ações humanitárias e apresentam padre Júlio quase como um santo. Outras preferem dar visibilidade às próprias pessoas em situação de rua, mostrando suas dores, mas também momentos de alegria e dignidade. Entre os exemplos citados estão três imagens de mulheres em situação de rua sorrindo para a câmera, cuja disposição aproxima as retratadas dos observadores.
De acordo com padre Júlio, esse senso de conexão existe porque as fotos foram feitas com respeito e confiança mútua entre os fotógrafos da Pastoral e as pessoas representadas. “As fotos não são posadas ou artificiais. Elas capturam momentos espontâneos resultantes de um longo período de convivência e conhecimento mútuo entre os fotógrafos e as pessoas retratadas”, afirmou.
O fotógrafo Tr3ze relata que o processo exige convivência. “Para registrar essas pessoas, você tem que realmente andar entre elas, conviver entre elas e ganhar confiança. Meus registros começaram fotografando as filas de distribuição de pães e, aos poucos, as pessoas vinham conversar comigo”, disse. Ele conta que muitos temem ser denunciados ou ter a imagem enviada à polícia, mas que outros tantos buscam o contato. “Por serem totalmente ignoradas socialmente, elas querem conversar, querem ser escutadas”, afirmou.
Análise WeekNews: ao condicionar a homenagem ao protagonismo das pessoas em situação de rua, a mostra desloca o foco habitual das ações assistenciais para os próprios retratados. A escolha curatorial e o método de trabalho dos fotógrafos, baseado em convivência prolongada, indicam que a exposição pretende menos celebrar uma figura pública e mais propor uma mudança de percepção do visitante sobre quem vive nas ruas.
Fonte: Agência Brasil.
