
Entre janeiro e agosto de 2026, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 registrou 1.564 denúncias de violência política contra mulheres, que correspondem a 1.581 violações identificadas. A diferença entre os números ocorre porque uma única denúncia pode conter mais de um tipo de violência praticada pelo mesmo agressor. O período coincide com o ano de eleições gerais no Brasil.
As violações incluem discriminação e desigualdade de tratamento por gênero, raça ou etnia, ameaças e difamação de candidatas, divulgação de conteúdo inverídico, desqualificação de habilidades e funções, interrupção frequente de fala em ambientes políticos, questionamento sobre escolhas de vida privada e julgamento pela aparência física e forma de vestir. Entre os crimes registrados estão ameaças de morte e estupro, ataques racistas e transfóbicos, vandalização de materiais de campanha, coação, misoginia, constrangimento, intimidação e deslegitimação de mulheres que ocupam ou disputam espaços de poder, além de casos de responsabilização judicial.
A secretária Nacional de Articulação Intersetorial e Interfederativa e Participação Política do Ministério das Mulheres, Sandra Kennedy, relaciona a violência política contra as mulheres a um fenômeno mais amplo, marcado pela exacerbação da misoginia, da violência doméstica e do feminicídio na sociedade patriarcal. Sobre os ataques a materiais de campanha, ela afirmou: “Agora, nesta disputa eleitoral, até quando vandalizam um banner de mulheres, não rasgam em qualquer lugar. Furam o olho, rasgam o rosto. Isso é uma afronta aos corpos das mulheres, à sua figura feminina”.
Em 2025, o Ligue 180 registrou 2.310 denúncias de violência política contra mulheres, com 2.334 violações, dentro de um universo de mais de 155,1 mil denúncias de todos os tipos de violência contra a mulher. Considerando apenas janeiro a agosto do ano passado, foram 1.649 denúncias de violência política. Para Sandra Kennedy, a redução pontual de um ano para outro não indica diminuição do problema nem permite definir tendências, e pode haver subnotificação. “Os dados estão muito longe da realidade, até porque muitas das mulheres não conhecem o canal (Ligue 180) como um espaço para denunciar”, disse.
O Tribunal Superior Eleitoral classifica a violência política de gênero como um dos maiores entraves para a entrada e permanência de mulheres na política. Às vésperas das eleições gerais, a Justiça Eleitoral divulgou novo recorde de casos: o número de processos relacionados ao tema saltou de 15, em 2022, para 177 em 2026. Desses, 26 estão diretamente ligados à campanha para as eleições deste ano.
O levantamento do Ministério das Mulheres integra o Plano de Ação do Protocolo de Enfrentamento à Violência Política Contra as Mulheres, que define diretrizes no Ligue 180 para prevenir, registrar, acolher, encaminhar e acompanhar casos de violência política de gênero, além de fortalecer a proteção dos direitos políticos das mulheres e a responsabilização dos autores. O documento prevê atuação integrada entre instituições do sistema de Justiça e da rede de proteção, com atendimento sigiloso, orientação sobre direitos, encaminhamento aos órgãos competentes e adoção de medidas para interromper a violência e proteger a mulher.
Podem recorrer ao protocolo candidatas a cargos eletivos, mulheres com mandato, ocupantes de cargos públicos, lideranças comunitárias e sociais, defensoras de direitos humanos, representantes de movimentos sociais e organizações da sociedade civil, ativistas e demais mulheres que exerçam atuação política ou pública, ainda que não sejam candidatas ou eleitas.
Denúncias de violência política podem ser feitas pelo Ligue 180, com atendimento gratuito, humanizado e sigiloso, 24 horas por dia, todos os dias da semana, por telefone, WhatsApp (61) 9610-0180, e-mail [email protected] e videochamada em Libras. Também estão disponíveis a Ouvidoria das Mulheres do Conselho Nacional do Ministério Público, a Procuradoria-Geral Eleitoral por meio da Sala de Atendimento ao Cidadão do Ministério Público Federal, a Ouvidoria Nacional da Mulher do Conselho Nacional de Justiça, a Polícia Federal pelo canal Comunica PF e nas delegacias estaduais, e o Grupo de Trabalho Mulheres da Defensoria Pública da União. Em emergências, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190.
Análise WeekNews: Os números de 2026, em ano de eleições gerais, mostram que a violência política de gênero permanece concentrada em um período de disputa eleitoral, quando candidatas e mulheres com mandato ficam mais expostas. A avaliação da secretária de que os registros não refletem a totalidade do problema e o salto de processos na Justiça Eleitoral, de 15 para 177, indicam que a ampliação dos canais de denúncia e do protocolo de enfrentamento tende a tornar visível uma demanda que antes chegava menos às instituições.
Fonte: Agência Brasil.
