Retrospectiva em homenagem a Ruy Guerra reúne 17 longas no Rio até 16 de outubro

Retrospectiva em homenagem a Ruy Guerra reúne 17 longas no Rio até 16 de outubro
Fonte da imagem: Agência Brasil


A Caixa Cultural Rio de Janeiro recebe, até 16 de outubro, a Retrospectiva Ruy Guerra – Uma Vida de Cinema, mostra que percorre quase sete décadas da produção do cineasta moçambicano radicado no Brasil. A entrada é gratuita, com ingressos retirados meia hora antes de cada sessão na bilheteria do espaço, na Rua do Passeio, 38, no centro da cidade. Não haverá sessões às segundas-feiras nem em 9 de outubro, e a classificação é a partir de 18 anos.

A programação reúne 17 longas-metragens do diretor e dois documentários sobre sua trajetória. O recorte vai de Os Cafajestes (1962), primeiro longa de Ruy Guerra, a A Fúria (2024), obra mais recente e que encerra a chamada Trilogia dos Fuzis, iniciada com Os Fuzis (1964) e seguida por A Queda (1978). Os três filmes, realizados ao longo de seis décadas, são ligados por um mesmo personagem, Mário.

“São três filmes sobre um personagem, o Mário, que é um cara de uma retidão muito grande e por isso é muito abalado na vida”, afirmou à Agência Brasil o curador e cineasta Aristeu Araújo.

Entre os destaques está Ternos Caçadores (1969), produção francesa que passou décadas praticamente inacessível ao público brasileiro e agora é exibida em versão restaurada em 4K. Segundo o curador, o filme foi produzido na França na década de 1960, estava praticamente perdido e não era exibido há muito tempo. Havia no Brasil uma cópia em película muito deteriorada, que mal podia ser assistida. “Agora, a restaurada é de muito boa qualidade”, disse Araújo, acrescentando que a obra teve boa carreira no lançamento na França e na Espanha, mas foi pouquíssimo exibida no Brasil.

Já Kuarup, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes e é apontado como importante na carreira do cineasta, não tem nenhuma cópia digital em condições adequadas de exibição. No Rio, será projetado em película, com cópia guardada no Arquivo Nacional. Em Curitiba, a sessão foi acompanhada de aviso prévio ao público sobre a qualidade do material.

A mostra também inclui os documentários O Homem que Matou John Wayne (2015), de Bruno Laet e Diogo Oliveira, no qual Ruy Guerra tem um encontro inesperado com o ator americano, e Tempo Ruy (2021), de Adilson Mendes, sobre o trabalho do cineasta, escritor, ator e dramaturgo.

De acordo com Araújo, a curadoria buscou reunir todos os filmes de Ruy Guerra que pudessem ser exibidos em uma retrospectiva ampla. Como a preservação de filmes no cinema nacional é frequentemente precária, a organização fez um trabalho de pesquisa e localização de cópias. Muitas obras são em película e, quando não há possibilidade de exibição nesse formato, é preciso recorrer a arquivos digitais. “Um grande problema é como essas cópias foram passadas para o digital. Às vezes não foram bem telecinadas, são cópias muito antigas com resolução baixa”, explicou.

O curador avalia que a gratuidade amplia a divulgação do trabalho do cineasta. “É uma espécie de democratização da cultura do cinema brasileiro fazer este tipo de movimento, por isso a gente insistiu em fazer tudo gratuito”, afirmou.

Aos 95 anos, Ruy Guerra participa da mostra com uma masterclass neste sábado (3), às 18h, dedicada à construção artística e política da Trilogia dos Fuzis. O ingresso deve ser retirado meia hora antes, na bilheteria da Caixa Cultural.

Nascido em Moçambique durante o domínio colonial português, Ruy Guerra saiu do país no período de surgimento da nouvelle vague para estudar cinema em Paris. Chegou ao Brasil em 1958 e, em poucos anos, tornou-se um dos principais nomes do Cinema Novo, ao lado de Glauber Rocha (1939-1981) e Cacá Diegues (1940-2025). O olhar político, o diálogo com outras linguagens artísticas e a experimentação estética marcam sua obra.

Araújo descreve a produção do cineasta como diversa, sem um tema único, embora atravessada por questões políticas. “Ele é um homem de esquerda e muito revoltado com a opressão. Isso é um ponto em comum e grande parte dos filmes dele traz as pessoas que são oprimidas e estão revoltadas com um certo status quo”, apontou.

A literatura é outra marca da filmografia. Ruy Guerra adaptou para o cinema textos de autores como Gabriel García Márquez (1927-2014) e Antonio Callado (1917-1997), além de se dedicar a peças, poemas e letras de músicas compostas com nomes da MPB, como Milton Nascimento, Francis Hime e Chico Buarque. O catálogo digital preparado para a retrospectiva traz uma entrevista inédita do curador com o cineasta, na qual ele revela que sempre teve grande paixão pela palavra e que, antes de tudo, queria ser escritor.

“Ele queria trabalhar com literatura, queria ser escritor, mas na juventude o pai fez pressão para ter uma profissão. Ele já gostava muito de cinema e falou que o cinema é uma má profissão, mas é uma profissão. Ele nunca se distanciou da literatura”, contou Araújo.

Antes do Rio, a retrospectiva passou pela Caixa Cultural de Curitiba. As obras do cineasta abordam temas como violência, desigualdade, poder, liberdade e justiça social. Perto de completar 100 anos, Ruy Guerra segue produzindo. “Ele tem essa história em que fala que vai filmar até só 100 anos para depois se dedicar à literatura”, disse o curador.

Análise WeekNews: A retrospectiva reúne em uma única programação filmes que atravessam quase sete décadas e diferentes momentos históricos do Brasil, o que dá ao público a chance de acompanhar a evolução estética e política de Ruy Guerra em sequência. A exibição de Ternos Caçadores em 4K e de Kuarup em película evidencia tanto o esforço de recuperação de obras de difícil acesso quanto as limitações de preservação do cinema nacional, tema levantado pelo próprio curador

Fonte: Agência Brasil.

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