
Em Águas Lindas de Goiás (GO), eleitores que estudaram ou aprenderam a ler na Escola Domingos Simões voltaram neste domingo (4) ao local para votar. A unidade de ensino, que começou em 1992 na área de um curral de vacas de uma fazenda, é tratada pela comunidade como referência e desperta emoção em moradores que tiveram trajetórias escolares curtas.
O piauiense Pedro Pereira, de 56 anos, chegou às 5h50 para ser o primeiro da fila, antes da abertura das salas às 8h. Porteiro há 25 anos em um prédio de Brasília, a 50 quilômetros de distância, ele enfrenta cerca de duas horas de ônibus e disse esperar que um dia acabe a escala 6×1 para ter uma vida melhor. Ele interrompeu os estudos no quarto ano, quando criança, para trabalhar na roça com a família em Campo Maior, a 90 quilômetros de Teresina, e afirma não lembrar quase nada do que aprendeu. “Pisar numa escola mexe demais comigo”, declarou. Ele influenciou os seis filhos a estudar e costuma contar que vendeu uma cabra para comprar a passagem que o trouxe ao Centro-Oeste.
A psicopedagoga Maria do Socorro Pereira, de 69 anos, ainda atua como professora na escola e recorda que, em 1992, reuniu as primeiras 60 crianças, filhos de trabalhadores rurais, no espaço improvisado. Hoje a unidade tem 1.350 alunos. “Ocupamos o lugar que era o curral das vacas”, disse. Segundo ela, o começo teve contêineres e ela chegou a cavar uma cisterna para que o local virasse escola. O primeiro nome foi Ayrton Senna da Silva, sugerido por ela após a morte do ídolo, em 1994. Desde 1995, quando Águas Lindas de Goiás se tornou município autônomo, a escola passou a discutir participação social e política, segundo a professora. O nome Ayrton Senna ficou para um prédio de ensino médio na mesma rua, enquanto Domingos Simões atende infantil e fundamental.
Na fila, o agricultor Divino Evangelista dos Santos, de 53 anos, que estudou até o quarto ano, disse se considerar analfabeto. Teve 11 filhos e mora sozinho, mas se orgulha de que nenhum deles desistiu dos estudos. Também analfabeto, o pedreiro Dorival Batista, de 62 anos, natural de Rio do Sono (TO) e morador de Águas Lindas desde 2002, sonha dormir mais tranquilo quando se aposentar.
A camareira de hospital Géssica Matos, de 33 anos, esperava para votar com o filho Oliver Darwin, de nove meses, no colo, ao lado do marido, o marceneiro Jeremias Azevedo, de 30 anos. Ela estudou a vida toda na escola. “Foi aqui que a gente cresceu. Nós votamos para ele ter também esperança de futuro”, afirmou. Géssica acorda antes das 4h para pegar o ônibus até o Hospital de Base, em Brasília, onde cumpre escala.
O advogado Adenilson dos Santos Filho, de 36 anos, lembrou o primeiro dia de aula, aos sete anos, e disse que a unidade é referência para a comunidade. “E pensar que era um curral”, comentou, recordando que, no início, vinha por causa da merenda. Filho de caminhoneiro e de professora primária, ele chegou ao ensino superior pelo Programa Universidade para Todos (Prouni).
O balconista Adriano Silva, de 20 anos, recém-formado na escola, disse ter sentido nostalgia ao voltar para votar e hoje cursa gestão pública. A monitora Lídia da Conceição, de 31 anos, que estudou a vida inteira no local e atende alunos com neurodivergência, faz pedagogia e quer ser professora na mesma escola. A diretora Zélia Vaz, de 58 anos, afirmou que a unidade atendeu, em três décadas, alunos e familiares em diferentes graus de vulnerabilidade social. “Nosso papel é orientar. Conheço todos que passam aqui”, disse, defendendo que o cotidiano de cada sala de aula amplia os olhares para cada voto na urna.
Análise WeekNews: a trajetória da Escola Domingos Simões, que passou de curral a unidade com 1.350 alunos, aparece no relato dos eleitores como parte da história de mobilidade social da comunidade. A escola funciona, ao mesmo tempo, como local de votação e como referência de formação para moradores que hoje exercem funções como advogado, monitora e estudante de ensino superior.
Fonte: Agência Brasil.
