
Um levantamento do laboratório NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou anúncios político-eleitorais e recomendações de conteúdos de candidatos em plataformas digitais neste domingo (4), dia do primeiro turno das eleições de 2026. O monitoramento também apontou falta de transparência nas ferramentas de fiscalização das big techs.
Segundo o relatório, 45 anúncios tiveram a data final de circulação estendida para o dia da votação. As peças estavam associadas a dez páginas de candidaturas e, de acordo com o estudo, anúncios que originalmente terminariam no dia 3 permaneceram registrados como ativos no dia 4. O NetLab ressalta, no entanto, que não foi possível confirmar integralmente o caso devido a divergências entre os dados exportados pelo Kwai e as informações exibidas na própria biblioteca de anúncios da plataforma.
No Google, o monitoramento encontrou um anúncio identificado anteriormente, em 3 de outubro, que permanecia ativo de forma irregular na infraestrutura de publicidade da empresa.
Além da publicidade paga, o laboratório acompanhou os sistemas de recomendação do TikTok, YouTube e Instagram para verificar se as plataformas continuavam sugerindo conteúdos publicados por contas oficiais de candidatos. Entre os dias 3 e 4 de outubro, foram identificados 18 vídeos de sete candidatos recomendados pelo TikTok e 17 vídeos de seis candidatos recomendados pelo YouTube. No Instagram, não foram encontradas recomendações de vídeos publicados por candidatos.
O NetLab afirma que limitações das big techs dificultam tanto a fiscalização quanto a responsabilização por eventuais irregularidades. No caso da Meta, o laboratório identificou divergências entre os dados apresentados na interface da Biblioteca de Anúncios e aqueles obtidos por meio da ferramenta de programação da empresa: havia anúncios classificados como inativos na interface que simultaneamente apareciam em listagens de anúncios ativos. No Kwai, também foram encontradas divergências entre os dados exibidos na biblioteca e os arquivos exportados pela própria plataforma. Google, LinkedIn e TikTok, por sua vez, oferecem informações consideradas limitadas para o acompanhamento sistemático da propaganda eleitoral.
Procuradas pela reportagem, as empresas citadas se manifestaram. A Meta afirmou que está comprometida em proteger o processo eleitoral e atua em conformidade com a legislação eleitoral, acrescentando que a amostragem do relatório não reflete a escala do seu trabalho de integridade.
O Kwai declarou que aguarda acesso aos conteúdos mencionados para a devida avaliação e reiterou seu compromisso com a integridade do processo eleitoral e com o cumprimento da legislação brasileira e das resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A plataforma informou que manteve uma operação especial no período eleitoral, incluindo os dias de silêncio eleitoral e de votação, com equipes dedicadas atuando continuamente na moderação de conteúdos e no atendimento às determinações da Justiça Eleitoral. Segundo o Kwai, as regras aplicáveis ao período de silêncio foram comunicadas previamente a todos os parceiros e anunciantes, e o upload de novos criativos de publicidade eleitoral foi restrito desde o dia 1º de outubro.
O TikTok afirmou que proteger a integridade do ambiente digital durante as eleições é uma prioridade e que o desafio exige colaboração entre plataformas, autoridades e sociedade. A empresa disse seguir trabalhando em parceria com o TSE e cumprindo a legislação e as resoluções eleitorais aplicáveis, e informou que removeu 348.963 vídeos no Brasil entre junho e setembro de 2026 por violarem suas políticas de Integridade Cívica e Eleitoral, desinformação e conteúdos enganosos gerados por IA.
O Google declarou que apoia as eleições no Brasil ao conectar milhões de pessoas a informações confiáveis e de alta qualidade, e que suas políticas do Google Ads proíbem anúncios políticos no país desde 2024. A empresa afirmou aplicar suas políticas e agir imediatamente em caso de violação, e sustentou que o estudo prova que suas equipes preveniram abusos com sucesso, razão pela qual apenas um anúncio foi identificado.
Análise WeekNews: O levantamento do NetLab reúne dois tipos de achado: a permanência de anúncios ativos em data em que a propaganda eleitoral paga não deveria circular e a recomendação algorítmica de conteúdos de candidatos. As respostas das plataformas indicam que elas contestam a escala ou a interpretação dos dados, mas não apresentam, nas notas enviadas, uma refutação específica caso a caso. A divergência entre o que as bibliotecas de anúncios exibem e o que suas próprias ferramentas de programação retornam é o ponto que o laboratório destaca como obstáculo à fiscalização, porque dificulta verificar de forma sistemática o que esteve ativo no dia da votação.
Fonte: Agência Brasil.
