
A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo completa 50 edições em 2026 e vai exibir 380 filmes de 93 países, segundo informou a diretora do festival, Renata de Almeida. Ao longo de sua história, iniciada em outubro de 1977, a mostra já apresentou 11.692 filmes de 8.474 cineastas de diversos países.
A primeira edição foi organizada pelo crítico Leon Cakoff, então diretor do departamento de cinema do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), e integrou as comemorações dos 30 anos de fundação do museu. Apesar da divulgação limitada e da cobertura discreta da imprensa, os 11 dias de exibição atraíram mais de 15 mil espectadores. Foram exibidos 23 filmes de 17 países, entre eles Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia, de Hector Babenco, cuja sessão foi amplamente ovacionada.
Desde o surgimento, a mostra nunca deixou de ser realizada, inclusive durante a pandemia e os períodos de fechamento de salas de cinema, quando adotou exibição online ou em cinemas drive-in. Em algumas edições, exibiu mais de 460 filmes; em outras, aconteceu em formato menor por dificuldades de patrocínio.
“Acho que o segredo da mostra é que ela é elástica, ela pode ser mega ou enorme, como neste ano em que estamos comemorando 50 anos, como ela também pode ser pequenininha. Eu acho que a gente tem que saber dançar conforme a música”, afirmou Renata de Almeida. Ela contou que sua história com o evento começou em 1989, na 13ª edição. “Estou há 37 anos fazendo isso. Primeiro começou como um trabalho, teve o divertimento e agora é um pouco da minha vida. Tudo junto e misturado, não dá mais nem pra saber o que é uma coisa ou outra”, disse.
Para celebrar as 50 edições, a mostra também vai promover exposições, shows, debates e lançamentos de uma plataforma de acervo e de livros. Entre eles está Antes Que Eu Me Esqueça: Um Ensaio de Lembranças para os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, escrito por Renata. “É um livro sobre as histórias da mostra, mas também sobre a minha vida e sobre as minhas histórias dentro da mostra. É um livro de encontros. Foi também um retrospecto de entender várias coisas que aconteceram com a vida e me revisitar em outras épocas e outras idades”, declarou.
Frequentadores relatam que o festival teve papel central no acesso do público brasileiro a cinematografias pouco exibidas no circuito comercial. O jornalista Ubiratan Brasil, o Bira, acompanha a mostra desde a 4ª edição e recorda uma sessão de 1992, no MASP, quando assistiu a Cães de Aluguel ao lado de poucas pessoas. O diretor do filme, então desconhecido, estava presente. “Ninguém tinha ouvido falar dele”, contou Bira, referindo-se a Quentin Tarantino. “A mostra trazia isso, essas boas surpresas que depois se confirmariam no futuro.”
Segundo Bira, o evento abriu as portas do cinema mundial para os paulistas. “Os cinemas aqui passavam só blockbusters, só os americanos. Você nunca tinha a chance de ver um filme chinês, um filme coreano, um filme cubano”, afirmou. Ele lembra que, naquela época, era possível entrar em uma sessão de um filme indiano com legendas em italiano. “Eu não falo italiano, então eu ficava mais observando as imagens e tentando entender um pouco da história. Tinha um pouco esse grau de aventura e de descobertas, que era muito gostoso.”
A aposentada Vanda Sanae Hamanaka Serizawa acompanha a mostra desde a primeira edição. “Apesar de poucos filmes, comparado ao que ela agora se tornou, esta foi uma janela extraordinária para o mundo que não conhecíamos. Aquele era um período de ditadura e tudo era censurado. O Cakoff contornou aquela situação magistralmente e foi aprimorando a mostra a cada ano”, disse. “Era um portal de alumbramento. Quem experimentava aquela vivência, via de regra, retornava nos próximos anos. Nos primórdios, os filmes eram de graça.”
Vanda destaca que a mostra contribuiu para a formação de profissionais do cinema. “Vários ‘mostreiros’ se profissionalizaram como diretores ou críticos de cinema. Até o ano 2000, quase não tínhamos acesso à internet. Então, o diferencial da mostra sempre foram os filmes fora do mainstream. Ela era um canal para a gente ter contato com imagens, linguagens e comportamentos de outras paragens e, sobretudo, ter a percepção crítica além da tela”, afirmou. Ela também ressalta que o evento ajudou a formar novos públicos por meio de sessões gratuitas ou realizadas em periferias e se tornou uma grande confraternização entre cinéfilos.
Nomes como Wim Wenders, Pedro Almodóvar, Manoel de Oliveira, Amos Gitai e Jafar Panahi participaram do festival em São Paulo para apresentar seus filmes.
Análise WeekNews: A trajetória da mostra, que passou de 23 filmes de 17 países na primeira edição para 380 filmes de 93 países em 2026, indica uma ampliação consistente do alcance do festival ao longo de cinco décadas. Os relatos de frequentadores sugerem que o evento ocupou, no circuito paulistano, um espaço de exibição de cinematografias pouco presentes no circuito comercial, além de ter contribuído para a formação de público e de profissionais. A continuidade sem interrupções, inclusive em períodos de crise, é um dado demonstrável que diferencia a mostra de outros eventos culturais.
Fonte: Agência Brasil.
