
Um relatório da Oxfam revela que o Brasil é o segundo maior importador de pesticidas proibidos na União Europeia, em um cenário em que 93 países adquirem agrotóxicos considerados altamente perigosos (AAPs) do bloco. Desses importadores, 75% são nações de baixa e média renda do Sul Global, onde os mecanismos de proteção e regulamentação costumam ser mais frágeis, segundo a organização.
A análise aponta que, no Brasil, os AAPs correspondem a 49% de todos os agrotóxicos vendidos, proporção muito superior à observada em países da UE, como a Alemanha, onde representam apenas 12% das vendas. O relatório destaca ainda que seis dos dez pesticidas mais vendidos no Brasil são proibidos na União Europeia, mas continuam sendo pulverizados sobre lavouras e áreas próximas a florestas por tratores, aviões e drones.
De acordo com a Oxfam, esse uso intensivo está diretamente ligado ao modelo agrícola baseado em grandes monoculturas voltadas para exportação, como soja, café e cana-de-açúcar, altamente dependentes de agrotóxicos. A entidade alerta que os pesticidas altamente perigosos representam cerca de um terço dos ingredientes ativos utilizados em todo o mundo e são empregados principalmente em países do Sul Global.
“Esse duplo padrão transfere os riscos para trabalhadores rurais, comunidades e territórios do Sul Global, enquanto os benefícios econômicos ficam concentrados em poucas empresas”, afirmou Viviana Santiago, representante da Oxfam.
O documento também aponta a concentração do mercado: quatro empresas controlam 61% do mercado global de pesticidas e obtiveram cerca de € 2,7 bilhões em receitas (R$ 15,37 bilhões) pela venda de pesticidas altamente perigosos. Para a Oxfam, os números evidenciam que o poder econômico e os lucros desse comércio de produtos tóxicos ficam nas mãos de grandes multinacionais agroquímicas, enquanto os riscos à saúde e ao meio ambiente são transferidos para os países do Sul Global.
“É preciso interromper a exportação de agrotóxicos proibidos e avançar em regras que coloquem a saúde, os direitos das pessoas e a proteção ambiental acima dos interesses comerciais”, defendeu Viviana Santiago.
Apesar do cenário de amplo uso de agrotóxicos, a Oxfam aponta que a expansão do mercado brasileiro segue acelerada. Segundo a entidade, em 2025 o país registrou um novo recorde de aprovações, com 725 novos pesticidas autorizados, um aumento de quase 10% em comparação com o recorde anterior de 663 produtos registrados em 2024.
O Ministério da Agricultura foi procurado para comentar o relatório e ainda não havia se posicionado até a publicação da reportagem.
Análise WeekNews: Os dados do relatório escancaram uma contradição regulatória: produtos banidos na União Europeia por risco à saúde e ao meio ambiente continuam sendo exportados para o Brasil e outros países do Sul Global, onde viram parte central de um modelo agrícola exportador. A concentração de 61% do mercado global nas mãos de quatro empresas e o recorde de aprovações de novos pesticidas no Brasil em 2025 indicam que a tendência é de pressão crescente sobre os mecanismos de regulação, enquanto os custos ambientais e sanitários permanecem nos territórios que importam esses insumos.
Fonte: Agência Brasil.
