Redes da Maré leva às ruas orientação sobre voto após mudança de 17 mil locais de votação

Redes da Maré leva às ruas orientação sobre voto após mudança de 17 mil locais de votação
Fonte da imagem: Agência Brasil


A organização não governamental Redes da Maré iniciou nesta terça-feira (20) uma mobilização de rua para orientar moradores do Complexo da Maré sobre o segundo turno da eleição presidencial, marcado para domingo (25). A ação, chamada Esquinas por Direitos, segue até sexta-feira (23) e ocorre após a alteração do local de votação de 16.907 eleitores da região no primeiro turno, em 4 de outubro.

Os pontos de conversa com a população são divulgados diariamente no perfil da instituição. A ONG também usa redes sociais para esclarecer dúvidas, como a de que quem não votou no primeiro turno pode votar normalmente no dia 25, inclusive quem ainda não tem a biometria cadastrada. Em uma das postagens, orienta: “Antes de sair de casa, confira seu local de votação e a situação do seu título eleitoral”. A expectativa, segundo a própria divulgação, é de filas menores, já que no Rio de Janeiro não haverá segundo turno para governador — “Só votaremos em presidente”, informa o material. Moradores também trocam informações por aplicativos de mensagens.

As mudanças de endereço foram determinadas pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) com o objetivo de retirar seções de áreas consideradas de alto risco ou dominadas pelo crime organizado. Segundo o tribunal, os novos locais ficam fora de territórios controlados pelo tráfico ou por milícias, distantes de áreas de facções rivais e o mais próximos possível dos endereços substituídos. No estado, 72 locais foram alterados em relação a 2024, em 20 cidades, afetando cerca de 202 mil eleitores.

Na Maré, conjunto de 16 comunidades da zona norte do Rio com cerca de 140 mil moradores, as alterações atingiram 41 seções da 161ª Zona Eleitoral. Os 7.268 eleitores da Escola Municipal Professor Josué de Castro passaram a votar no Centro Educacional Gama E Souza; os 4.907 da Escola Municipal Teotônio Vilela foram transferidos para o Bonsucesso Futebol Clube; e os 4.732 da Escola Municipal Professor Paulo Freire agora votam na Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso de Inhaúma.

O fotógrafo Marlon Soares, morador da Maré, relata as dificuldades enfrentadas no primeiro turno. “Sempre votei lá, inclusive é o mesmo local de votação da minha família. Era o melhor local para votar, por conta da fila, que não existia”, disse. No novo endereço, encontrou “filas gigantescas”: “Me jogaram para outro bairro. Tive que pegar condução para chegar e fiquei mais de duas horas na fila para conseguir votar”.

Levantamento da Agência Brasil com base nos Boletins de Urna aponta abstenção de 31,07% nas 41 seções da Maré que tiveram o endereço transferido, acima da média nacional de 21,08%. O estudo Como vota a Maré, da Redes da Maré, ressalva que os dados não permitem estabelecer relação causal direta entre a mudança e a abstenção, especialmente porque houve crescimento do eleitorado, mas reforçam a preocupação com as barreiras de acesso geradas pelos deslocamentos para fora do território. Em 2024, a abstenção na região havia sido de 28%. Segundo a ONG, em quatro anos, 50% dos eleitores tiveram novos pontos de votação.

Para a instituição, o impacto envolve sobretudo acessibilidade e mobilidade urbana, com aumento do tempo de caminhada, necessidade de atravessar vias como a Avenida Brasil e a Linha Amarela, ausência ou inadequação de transporte público e trajetos percebidos como inseguros. A ONG estima em 62% a proporção de pretos e pardos no Complexo da Maré e avalia que esses efeitos atingem de forma desproporcional jovens, mulheres chefes de família, pessoas com deficiência e idosos. “Transporte gratuito não é suficiente quando o transporte não chega ao território”, afirma.

O TRE-RJ destacou que o transporte público no dia da votação é gratuito no país, com base na Resolução 23.759/2026 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e informou que ofereceu, pelo projeto Seu Voto Importa, transporte especial adaptado para eleitores com mobilidade reduzida no Complexo da Maré, mas não houve procura. No domingo de votação, o tribunal não relacionou o aumento da abstenção à mudança de locais. Para o segundo turno, a única alteração de endereço no Rio em relação ao primeiro turno é no bairro de Brás de Pina, na zona norte, nas seções 123 a 127 da 188ª Zona Eleitoral.

A analista de Incidência Política da Redes da Maré, Lia Manso, afirma que o voto “foi um direito arduamente conquistado e reafirmado em um contexto de redemocratização” e que “a luta por ele não está terminada”. Segundo ela, grande parte dos moradores da Maré são pessoas precarizadas em direitos que vão da segurança pública ao saneamento, passando por educação, cultura e o próprio voto. “O trabalho da Redes da Maré neste momento é estar nas ruas, trazer a dinâmica do debate sobre o voto e a importância da participação democrática, exercendo o direito ao voto, dizendo que o nosso voto importa, não só porque é um direito individual, mas porque impacta coletivamente o território e a vida de todas nós”, avalia.

Análise WeekNews: A mobilização da Redes da Maré ocorre num cenário em que a mudança de locais de votação afetou quase 17 mil eleitores da região e a abstenção nas seções transferidas ficou cerca de dez pontos percentuais acima da média nacional. O estudo da própria ONG evita afirmar causalidade, mas os números e os relatos de moradores indicam que o deslocamento para fora do território se soma a outras barreiras de acesso ao voto. A resposta do TRE-RJ, centrada na gratuidade do transporte e em frota adaptada sem procura registrada, sugere que a discussão sobre mobilidade na Maré segue em aberto para o segundo turno.

Fonte: Agência Brasil.

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