Protesto de estudantes da UFF após o 1º turno deu origem a onda de atos contra resultado das urnas

Protesto de estudantes da UFF após o 1º turno deu origem a onda de atos contra resultado das urnas
Fonte da imagem: Agência Brasil


Um ato convocado por estudantes de direito da Universidade Federal Fluminense (UFF) na noite seguinte ao primeiro turno das eleições de 2026 deu origem a uma série de protestos que se espalhou pelo país ao longo daquela semana. A manifestação, marcada por uma passeata em Niterói (RJ) sob chuva, reuniu centenas de pessoas e se tornou referência para a mobilização que pedia a reversão do resultado eleitoral.

A convocação partiu do Centro Acadêmico Evaristo da Veiga e da Associação Atlética Acadêmica Camillo Guerreiro, ambos do curso de direito, que publicaram nas redes sociais um cartaz com a frase “O abalo e o espanto precisam se transformar em movimento”. O chamado era para o dia 5 de outubro, uma segunda-feira, dia seguinte ao primeiro turno.

Rio de Janeiro (RJ), 26/10/2026 - Mobilização de estudantes nas ruas. Centro Acadêmico Evaristo da Veiga (CAEV) da UFF Niterói. Foto: CAEV UFF Niterói/Divulgação
Fonte da imagem: Agência Brasil

O protesto foi articulado na noite de domingo (4), quando a apuração indicava o senador Flávio Bolsonaro (PL) com 47% dos votos válidos, contra 45% do presidente Luiz Inácio Lula, agora reeleito. Os estudantes viam no candidato do PL uma ameaça à educação pública.

“Ele tinha como proposta tirar as universidades do Ministério da Educação e passar para o de Ciência e Tecnologia, que tem menos verbas”, afirmou Valentina Cruz, diretora do Centro Acadêmico de Direito. A proposta constava no plano de governo do candidato do PL, segundo o material. Para ela, a vitória de Flávio significaria “corte em todas as áreas das universidades, da infraestrutura ao auxílio permanência, um roteiro conhecido”, em referência ao governo de Jair Bolsonaro entre 2019 e 2022.

Simão Gabriel Adorno, membro da atlética do direito, lembrou que a UFF esteve entre as primeiras federais a sofrer cortes durante o primeiro mandato de Jair Bolsonaro, quando o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, justificou as medidas citando “balbúrdia” nas universidades. O ex-presidente endossou as críticas e chamou universitários de “idiotas úteis” e “massa de manobra”. Na época, os jovens protestaram, mas não conseguiram impedir o contingenciamento de até 30% das verbas, com impacto no funcionamento das instituições e nas bolsas de pesquisa.

“Nós vimos como o bolsonarismo atacou as universidades na gestão do Jair, como a universidade foi vilipendiada, como eles desprezam as instituições de ensino público. A gente sentia que estava arriscando a perder nossa faculdade, a nossa casa. A educação pública estava em risco”, avaliou Adorno.

Os estudantes também manifestavam contrariedade à anistia defendida por apoiadores de Jair Bolsonaro, preso por liderar uma tentativa de golpe de Estado que culminou nos ataques à Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. Flávio Bolsonaro prometia que o pai seria libertado e subiria a rampa com ele em sua posse, caso fosse eleito.

A articulação cresceu ao longo do dia 5. “Era para ser uma coisa interna, de alunos e professores, representantes de algumas entidades, como a OAB, mas passaram-se as horas e éramos centenas”, contou João Paulo Armando, outro diretor do centro acadêmico. Os participantes abriram a bandeira do Direito Antifascista, confeccionada em 2018, antes da primeira eleição de Jair Bolsonaro.

“Para nós, do Direito, a situação era absurda, sobretudo diante da postura dele contra direitos civis, contra a Constituição e em defesa da Ditadura. Nós sabemos o que foi isso”, afirmou Armando, citando Fernando Santa Cruz, aluno da instituição e militante político desaparecido pelos militares em 1974.

Com a convocação, outros cursos aderiram. “Vimos nosso país ameaçado, nossa democracia em risco, observamos as movimentações do governo Trump, e decidimos ser um ponto de resistência no Sul Global”, relembrou Cauê Moraes Marins da Silva, 22 anos, diretor do Centro Acadêmico de Relações Internacionais Sérgio Vieira de Melo, também da UFF.

No fim da tarde, os participantes já não cabiam no pátio e decidiram sair em caminhada, que passou pela reitoria da UFF, em Icaraí, e retornou à Faculdade de Direito, no Ingá. Moradores desceram dos prédios e transeuntes se juntaram ao grupo. Valentina contou ter visto uma senhora idosa, aposentada e de bengala, emocionada sob a chuva, dizendo que o futuro dos jovens não podia ser entregue à extrema-direita. Cauê relatou que ovos foram arremessados de sacadas contra os estudantes. “Na manifestação do dia 5, jogaram ovos contra nós em um ato pacífico, e, mesmo assim, nós continuamos”, disse.

A mobilização ganhou tração ao longo da semana. Na quarta-feira (7), estudantes do Rio ocuparam as ruas do centro da cidade em nova passeata, com a defesa da democracia e da educação pública de qualidade como principais bandeiras. Protestos se multiplicaram em cidades como Brasília, onde uma multidão se reuniu na Esplanada dos Ministérios. A sequência integrou a campanha popular pela reversão do resultado eleitoral, que passou a focar na possibilidade de ganhar votos nulos e atrair eleitores que não haviam comparecido às urnas.

“A eleição de vários representantes do fascismo, da extrema-direita, me assustou”, contou Isabela Casalini, 21 anos, aluna de desenho industrial da UFF. Ela disse ter tirado o título de eleitor aos 16 anos para votar contra Jair Bolsonaro em 2022. “No dia 5, a gente tinha um sentimento de revolta”, recordou. Para ela, aquela manifestação foi o pontapé para a mobilização crescente dos estudantes. “Hoje, estou aqui de novo para comemorar nossa vitória e informar que não deixaremos de nos posicionar nos próximos anos”, afirmou.

A historiadora Carolina Barreto, mestre em Comunicação pela UFF e pesquisadora de movimentos sociais, lembra que o protagonismo estudantil não é novidade. Antes da ditadura militar de 1964, a União Nacional

Fonte: Agência Brasil.

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