
A derrota dos republicanos na eleição de meio de mandato do presidente Donald Trump, em 5 de novembro de 2026, abriu uma crise na relação entre Estados Unidos e Israel, aliança que vinha sendo questionada internamente no país nos últimos anos. O vice-presidente JD Vance afirmou que a relação com Israel foi um dos quatro principais motivos apontados por um consultor de confiança para a perda das maiorias na Câmara e no Senado para os democratas.
No próprio dia da eleição, Trump anunciou, para surpresa de aliados em Israel, o fim da ajuda militar ao país, estimada em US$ 3,8 bilhões ao ano e que estava prevista para continuar até 2028. Para o professor de relações internacionais da PUC-SP Bruno Huberman, a decisão resulta de uma mudança nas relações bilaterais entre Washington e Tel Aviv. “Essa ajuda militar foi muito criticada. Os EUA fornecem ajuda militar para Israel desde o governo de John Kennedy (1961-1963). No primeiro governo Trump (2016-2020), essa ajuda se expandiu de forma muito agressiva”, afirmou o coordenador do Observatório de Conflitos do Oriente Médio.
Segundo o Conselho de Relações Exteriores, organização não governamental sediada nos EUA, Israel é “há muito tempo, o principal beneficiário da ajuda externa dos EUA, incluindo assistência militar”. A instituição calcula que, desde a fundação de Israel, em 1947, o país recebeu mais de US$ 300 bilhões até 2025. Desse total, US$ 224 bilhões são de assistência militar, mais que o dobro do segundo colocado, o Afeganistão, com US$ 113 bilhões.
Huberman destacou que o presidente democrata Joe Biden (2020-2024) manteve o nível de ajuda no contexto da guerra na Faixa de Gaza, classificada por alguns especialistas como genocídio. Esse apoio motivou uma onda de manifestações contrárias em universidades dos EUA em 2024. “É uma ajuda sem qualquer contrapartida de Israel. O fato de Israel usar esses recursos para comprar armas fabricadas pelas corporações americanas foi muito criticado pela esquerda do Partido Democrata durante a eleição, embora, no poder, os democratas não fizeram nada muito diferente”, disse.
O tema também marcou as urnas. Abdul El-Sayed venceu a disputa ao Senado por Michigan e se tornou o primeiro muçulmano eleito para a Casa, fazendo campanha contra os gastos com ajuda militar a Israel. “Tentam rotular você como alguém cheio de ódio se você acredita que crianças palestinas deveriam poder crescer na terra de seus antepassados sem serem assassinadas com o dinheiro dos nossos impostos”, declarou o senador eleito.
O professor Danny Zahreddine, da PUC de Minas e especialista em conflitos no Oriente Médio, avalia que o anúncio de Trump foi uma tentativa de impedir a vitória de El-Sayed. “A relação dos EUA com Israel traz hoje para o público americano um desconforto. Historicamente, o imaginário do mundo americano sempre foi muito favorável a essa relação. Isso começou a se desgastar com o genocídio em Gaza. Essa mudança começa em Gaza”, explicou.
Para Paulo Abraão, diretor-executivo da Brazil Office Alliance, organização que conecta pesquisadores brasileiros que atuam nos EUA, a Casa Branca reconheceu o custo político da aliança. “Eu não diria que isso significa necessariamente o enfraquecimento da aliança estratégica entre os dois países, mas sim uma mudança relevante nas condições políticas de sua sustentação”, comentou. Segundo ele, o apoio a Israel deixou de ser um consenso bipartidário e passou a produzir divisões eleitorais, geracionais e ideológicas. “Acho que o mais interessante é que a eleição demonstrou que a política externa americana no Oriente Médio também pode ser cobrada nas urnas”, concluiu.
Ainda na terça-feira da eleição, a cidade de Providence, em Rhode Island, aprovou com cerca de 75% dos votos uma medida que obriga o município a encerrar investimentos em “países estrangeiros que conduzem limpeza étnica, apartheid, ocupação militar ilegal ou genocídio”. Sem citar Israel, a iniciativa foi apresentada pela Coalizão Providence Pela Palestina e teve apoio do prefeito democrata local, David Morales.
Do lado israelense, o presidente Isaac Herzog reconheceu, em resposta ao comentário de Vance, que existe um sentimento anti-Israel nos EUA. “Esses são sentimentos que estão no ar em nosso grande amigo e aliado”, disse, acrescentando que Israel sempre “se esforçou ao máximo para ser bipartidário”, buscando apoio tanto de democratas quanto de republicanos, informou o jornal The Times of Israel. Já o representante do país na ONU, Danny Danon, rejeitou a análise do vice-presidente. “É muito fácil culpar Israel por tudo, mas não é esse o caso”, afirmou em entrevista à emissora i24News, defendendo que é preciso “prestar atenção” às vozes críticas a Israel dentro dos EUA.
Análise WeekNews: O fim do repasse anual de US$ 3,8 bilhões, anunciado no mesmo dia da derrota eleitoral, e a fala do vice-presidente indicam que o apoio a Israel deixou de ser um consenso confortável na política americana. A eleição de El-Sayed em Michigan e a votação em Providence sugerem que o tema passou a ter peso mensurável nas urnas, o que tende a tornar mais complexa a manutenção do nível histórico de assistência militar.
Fonte: Agência Brasil.
