
A jornalista e pesquisadora Angélica Kalil e a ilustradora PriWi lançam a história em quadrinhos “Time dos Sonhos”, obra que acompanha sete meninas em busca de montar um time de bairro enquanto investigam a trajetória das pioneiras do futebol feminino. Publicado pela editora Bebel Books e contemplado pelo Programa de Ação Cultural (ProAC) do Estado de São Paulo, o livro é voltado ao público infantojuvenil, mas, segundo a editora, tem atraído leitores de várias idades.
A narrativa parte de um grupo de meninas que, para formar o próprio time, resolve pesquisar a história de jogadoras que abriram caminho no esporte. A HQ recupera nomes como Fanta, Cebola, Soró, Sissi, Tafa, Kátia Cilene, Grazi, Lorena, Formiga, Cris e Marta. O projeto gráfico remete a um caderno de colagens, e o texto usa linguagem acessível, com menções a memes.
Segundo a fundadora da Bebel Books, Bebel Abreu, a iniciativa partiu das próprias autoras. PriWi foi goleira na juventude e voltou ao futebol amador depois de adulta, enquanto Angélica tinha o desejo de contar a história das mulheres no futebol brasileiro. As personagens foram criadas por PriWi entre 2013 e 2018, inspiradas em amigas de escola e em meninas brasileiras. Os nomes das sete protagonistas homenageiam personalidades ligadas à defesa dos direitos das mulheres.
A obra também aborda a proibição do futebol feminino no Brasil. O veto começou em 1941, quando o então presidente Getúlio Vargas assinou decreto-lei que retirava das mulheres o direito de praticar esportes considerados “incompatíveis com as condições de sua natureza”. Entre os argumentos usados à época estava o de que jogar futebol poderia prejudicar a gestação. O decreto foi revogado em 1979, mas a regulamentação oficial da modalidade só veio em 1983.
Na pesquisa para o livro, Angélica Kalil reuniu documentos que mostram a imprensa como uma das principais articuladoras da proibição, com manchetes dos anos 1930 como “Pé de mulher não foi feito para se meter em chuteiras” e “O futebol mata a graça da mulher”. Para a autora, a proibição não ocorreu apenas no Brasil, mas o país mantém, décadas depois, uma recusa ao futebol jogado por mulheres mais forte do que em outras nações, o que ela associa a uma sociedade estruturada no racismo, na misoginia e na LGBTQIA+fobia.
O lançamento oficial em São Paulo ocorreu no Centro Olímpico, com a presença de mais de 100 meninas jogadoras. As autoras também têm levado a obra a escolas e projetos sociais voltados ao fomento do futebol feminino, onde promovem oficinas, como a de confecção de brasão, atividade que reproduz a tarefa das personagens de definir nome e marca para o próprio time. O livro está à venda no site da editora, em 150 livrarias físicas do país e em livrarias virtuais, além de ser apresentado em feiras literárias.
Bebel Abreu destaca que, apesar do público-alvo infantojuvenil, a HQ tem conquistado leitores de diferentes idades, inclusive meninos, por tratar de futebol e amizade. Angélica Kalil encerra citando Simone de Beauvoir, para quem “toda a história das mulheres foi escrita pelos homens”, e afirma que chegou a hora de contar a história do futebol feminino.
Análise WeekNews: O lançamento ocorre às vésperas de 2027, ano em que o Brasil sedia a Copa do Mundo feminina, e dialoga com a ampliação do debate sobre a modalidade. Ao recuperar nomes pioneiros e explicar a proibição que vigorou por quase quatro décadas, a obra ocupa um espaço de informação histórica voltado ao público jovem, faixa em que a lacuna sobre a trajetória do esporte no país é apontada pelas próprias autoras.
Fonte: Agência Brasil.
