
A escritora, jornalista e roteirista Eliana Alves Cruz venceu o Jabuti 2026 na categoria Romance com o livro Meridiana, tornando-se a primeira mulher negra a receber o prêmio nessa categoria. Para ela, o ineditismo deveria causar estranheza não por sua condição, mas pelo fato de a conquista ter acontecido somente na 68ª edição da premiação.
Segundo Eliana, escritoras negras como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves já poderiam ter recebido esse reconhecimento antes. Meridiana narra a trajetória de uma família negra que vive em uma favela e busca ascender socialmente.
O primeiro Jabuti da autora veio em 2022, na categoria Contos, com A vestida. Com Meridiana, ela também recebeu em 2025 o Prêmio Guimarães Rosa, da Academia Brasileira de Letras, na categoria Ficção. No próximo dia 17 de novembro, a escritora toma posse como membro da Academia Carioca de Letras.
A vontade de ser escritora acompanha Eliana desde os 11 anos, quando registrou em um diário o desejo de seguir a carreira. A relação com a literatura foi cultivada em casa, pelo pai e pelas avós, que gostavam de contar histórias. Na vida profissional, encontrou no jornalismo uma forma de exercer a escrita e garantir o sustento, atuando em cobertura de esporte e como assessora de comunicação na Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos por mais de 20 anos.
Foi após adoecer em 2009 e 2010, em decorrência de uma rotina exaustiva de trabalho — quadro que hoje identifica como burnout —, que decidiu se dedicar às pesquisas que originariam seu primeiro livro de sucesso, Água de Barrela. A obra conta a saga de sua família, descendente de africanos escravizados trazidos para o Brasil, e levou cerca de cinco anos e meio para ser concluída.
Sem conseguir editora, Eliana inscreveu o livro na primeira edição do Prêmio Literário Oliveira Silveira, promovido pela Fundação Cultural Palmares, e venceu em 2015. A conquista, segundo ela, foi o incentivo de que precisava para seguir escrevendo.
A pesquisa para Água de Barrela partiu de histórias orais da família e de documentos guardados por sua madrinha, entre eles uma foto da bisavó e uma carta de uma descendente da família Tosta. Cruzando esse material com um título de eleitor que trazia o sobrenome do trisavô Adônis Tosta, a autora chegou à família que, no Recôncavo da Bahia, na região de Cachoeira e Santo Amaro, teve quase 3 mil pessoas escravizadas, segundo historiadores. Ela pesquisou arquivos no Rio de Janeiro, em Cachoeira e em Salvador, além de conversar com uma tia-avó de 105 anos, cujas memórias confrontou com a documentação.
O racismo e a escravidão são temas recorrentes na obra da autora. Com O crime do Cais do Valongo, ela percebeu que começava a desenvolver um projeto literário dedicado a investigar a vida negra no Brasil. Na interseção entre jornalismo e literatura, Eliana também apresentou o programa Trilha de Letras, na TV Brasil, e espera que a produção volte à programação.
Análise WeekNews: A fala de Eliana Alves Cruz desloca o debate sobre premiações literárias do mérito individual para o histórico de reconhecimento do setor. Ao citar autoras negras que precederam sua conquista, a escritora evidencia que a ineditismo na 68ª edição do Jabuti é um dado objetivo da premiação, e não uma particularidade de sua trajetória. O acúmulo de prêmios recebidos por ela desde 2015, em diferentes instituições, reforça a dimensão do intervalo entre a produção literária negra e sua consagração por esses circuitos.
Fonte: Agência Brasil.
