Gelato amazônico: de Santarém para o mundo, sorvete artesanal impulsiona bioeconomia e pequenos produtores




Gelato amazônico: de Santarém para o mundo, sorvete artesanal impulsiona bioeconomia e pequenos produtores
Fonte da imagem: Agência Brasil


Em Santarém, no oeste do Pará, quando a chuva dá trégua no chamado inverno amazônico, a clientela faz fila na Boto Gelato. A sorveteria artesanal, aberta em 2016 pelo engenheiro de produção Tiago Silva, transforma frutas, castanhas e ingredientes típicos da região em sobremesas que vão além do paladar: movimentam uma cadeia produtiva que começa nas feiras e chega ao balcão com sabor de memória afetiva.

A gerente comercial Eloísa Bento, que trabalha do outro lado da cidade, é uma das frequentadoras assíduas. “Tem muito sabor artificial por aí. Só aqui tem sabores bem regionais, que trazem memórias de infância. Você prova o cupuaçu e lembra de quando era criança, cortava a fruta, chupava o caroço. O açaí também. Qual paraense não gosta de açaí? E o sabor daqui é o da fruta de verdade”, diz.

No cardápio, criações como o Treme Treme — mistura de maracujá, pimenta, cupuaçu e jambu, que provoca uma sensação de ardência na boca — e o Carimbó, que homenageia a dança típica local com tapioca, doce de cupuaçu, flocos de coco, nibs de cacau e castanha-do-pará. Tiago, que estudou técnicas de gelato no Brasil e no exterior, explica que o processo artesanal faz diferença: “O gelato tem a preocupação de ser um produto mais artesanal, com ingredientes frescos. Então, posso oferecer textura, sabor, viscosidade, cremosidade, derretimento”.

O empresário gosta de observar a reação de quem não conhece os sabores amazônicos. “Quando provam um gelato com castanha-do-pará, é sempre: ‘Meu Deus, não é que é bom?’. Como assim, ‘bom’? Isso aqui é ótimo, é melhor do que pistache”, brinca. A comparação não é à toa: enquanto o pistache é 100% importado — os Estados Unidos respondem por 86% das mais de mil toneladas que o Brasil compra do exterior, segundo dados de 2024 do World Integrated Trade Solution (WITS) —, a castanha-do-pará é tipicamente brasileira. Acre, Amazonas e Pará concentraram cerca de 80% da produção nacional em 2024, com mais de 30 mil toneladas, conforme o IBGE.

Para manter a identidade regional, Tiago prioriza o abastecimento em feiras e com pequenos produtores. “Nós vamos à feira, em média, uma vez por semana. Pegamos os produtos em grandes quantidades e os congelamos”, conta. “Uma coisa que a gente preza muito é entender a cadeia da bioeconomia, que movimenta produtores e revendedores. Não temos uma rotatividade de fornecedores. Mantemos uma relação de fidelidade com quem conhecemos. Nós os apoiamos e eles nos apoiam.”

Um dos pontos de compra é o Mercadão 2000, onde William Gonçalves da Silva trabalha há nove anos com a tia. “Nós vendemos todos os derivados da mandioca, como as farinhas e a tapioca. Também temos grãos de feijão e rações para os bichos. A mercadoria vem toda em ônibus daqui da região”, explica. “É gratificante saber que nossos produtos estão fazendo sucesso por aí, sendo usados em outros lugares, como é o caso do sorvete do Tiago. Já teve gente que foi lá e veio aqui para conhecer de onde era a farinha que ele usa.”

A produtora Kelly, que vende frutas no mercado, observa o efeito em cascata: “Eu percebo que, cada vez mais, outros estabelecimentos, como sorveterias e pousadas, estão priorizando vir nas feiras e mercados. Isso movimenta muito as nossas vendas. Quando eles levam as nossas frutas, as pessoas que frequentam esses lugares têm interesse em vir aqui comprar mais. Querem provar coisas que não encontram em outros mercados”.

Tiago ressalta a importância de valorizar quem está na base da cadeia. “As pessoas do campo e do mercado geralmente não são muito valorizadas, porque estão na base e o trabalho não envolve muita tecnologia. Mas, sem eles, o que seria do meu negócio? Em que outro lugar eu conseguiria produtos assim? Então, sou muito grato em poder me relacionar e contribuir para o crescimento dessas famílias.”

Com o apoio do Sebrae, o empresário incorporou à marca elementos da cultura local, como o boto — presente na orla de Santarém nas espécies cor-de-rosa e tucuxi (cinza) e símbolo da Festa do Sairé, em Alter do Chão. “Meu sonho é pegar isso aqui tudo e levar para o mundo. Todos precisam experimentar os sabores da Amazônia e conhecer a realidade daqui. Essa é a nossa grande bandeira, produzir uma reflexão sobre a importância de preservar o nosso território”, conclui.

O programa Caminhos da Reportagem exibe na próxima segunda-feira (06), às 23h, na TV Brasil, o episódio “Bioeconomia no coração da Amazônia”, que mostra iniciativas como a Boto Gelato.

Fonte: Agência Brasil.

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