
Sete dos dez agrotóxicos mais vendidos no Brasil são proibidos na União Europeia (UE), o que não impede que esses produtos sejam exportados por empresas europeias para o país. Essa condição configura o chamado “colonialismo químico”, denunciou a geógrafa Larissa Mies Bombardi, pesquisadora do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD, na sigla em francês para Institut de Recherche pour le Développement), sediado na França.
A pesquisadora, que estuda o uso de agrotóxicos e suas conexões com a economia global há cerca de 15 anos, participou de uma conferência na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, Região Metropolitana do Rio de Janeiro, na sexta-feira (31).
Larissa Bombardi explicou que os agrotóxicos, produtos químicos usados na agricultura para defender as plantações contra pragas, doenças e plantas daninhas, têm como consequência de uso impactos nocivos ao ambiente e às saúdes humana e animal, motivo pelo qual alguns são proibidos no exterior. “São proibidos porque são cancerígenos ou porque provocam malformação fetal ou outros distúrbios hormonais, ou porque provocam severos impactos no ambiente”, afirmou.
A lista dos dez agrotóxicos mais utilizados no Brasil em 2023 inclui: glifosato e seus sais; mancozebe (proibido na UE); 2,4-D (proibido na UE); acefato (proibido na UE); clorotalonil (proibido na UE); atrazina (proibida na UE); S-metolacloro (proibido na UE); glufosinato (sal de amônio); malationa; e dibrometo de diquate (proibido na UE).
A geógrafa destacou que o Brasil é o principal destino da exportação de pesticidas proibidos na UE, com 3 mil toneladas em 2023, superando a quantidade dos três países que aparecem na sequência: Ucrânia, Estados Unidos e Rússia, que somam 2,6 mil toneladas.
Ela também apontou que o mercado de sementes resistentes a pragas e de agrotóxicos é dominado por apenas quatro empresas, duas delas europeias: Basf e Bayer (ambas alemãs), a americana Corteva e a chinesa Sinochem. As quatro detêm 51% do mercado de sementes e 62% do de agrotóxicos. Essa estrutura é resultado de um histórico de fusões e aquisições. “O capitalismo foi se organizando de uma forma em que essas empresas subordinam a renda da terra”, pontuou.
A pesquisadora comparou esse novo tipo de colonialismo ao período da escravidão. “A gente tinha empresas europeias comercializando pessoas para serem escravizadas, em uma época em que, obviamente, a escravização de seres humanos era impensável no território europeu”, relacionou.
Para Larissa Mies Bombardi, “o colonialismo não existe sem a colonialidade”. Para exemplificar, ela apontou que grandes proprietários concentram a maior parte da terra no país. “A gente nunca vai entender o uso de agrotóxicos no Brasil se a gente não entender a questão fundiária”, afirmou. “Independentemente dos governos, essa classe que monopoliza a terra no Brasil dita as regras”, complementou.
Ao apontar danos ao ambiente e à fauna, a geógrafa citou que, no intervalo de dez anos (2009-2019), houve declínio de 41% no número de insetos no mundo. No caso de borboletas, chega a 53%. Os dados citados constam no estudo Atlas dos Pesticidas 2022, da Heinrich-Böll-Stiftung, fundação ligada ao Partido Verde da Alemanha. “São substâncias que afetam os insetos e, afetando os insetos, afetam a biodiversidade, por isso que eles são proibidos na União Europeia”, explicou.
Outro exemplo apresentado foi o uso do herbicida atrazina, o sexto mais vendido no Brasil, que pode causar anomalias em anfíbios, como a mudança de sexo em sapos, o que pode levar à eliminação de fêmeas. “Imaginem o que pode significar a eliminação, por exemplo, das fêmeas em uma espécie”, provocou.
Atualmente, Larissa Bombardi vive na Bélgica, onde também é pesquisadora do Laboratório de Agroecologia da Universidade Livre de Bruxelas. Ela está fora do Brasil desde 2021, quando se sentiu insegura de continuar no país. Ela está licenciada do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP).
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que, desde 2006, finalizou 20 reavaliações. Como resultados dessas reavaliações, foram proibidos 13 ingredientes ativos de agrotóxicos: carbendazim, cihexatina, carbofurano, endossilfam, forato, lindano, metamidifós, monocrotofós, paraquate, parationa metílica, pentaclorofenol, procloraz e triclorfom, os quais são insumos para centenas de produtos no mercado.
Para seis dos ingredientes ativos reavaliados, ainda que os registros tenham sido mantidos, foram estabelecidas restrições com o objetivo de mitigar os riscos identificados (2,4-D, abamectina, acefato, forsmete, glifosato e tiram). Apenas um foi mantido sem restrições em seu registro (lactofem).
Ainda de acordo com a agência, entre os sete ingredientes ativos priorizados para reavaliação na última lista publicada pela Anvisa, um foi banido (carbendazim), quatro encontram-se com a reavaliação em andamento (tiofanato-metílico, epoxiconazol, procimidona e clorpirifós) e dois aguardam o início da reavaliação (linurom e clorotalonil).
Fonte: Agência Brasil.
