
Longe dos grandes centros urbanos, festivais literários têm se consolidado como espaços de encontro e visibilidade, reunindo milhares de pessoas em torno da literatura por alguns dias. Em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, o III Festival Internacional do Leitor Quindim exemplifica essa tendência. Com o tema “O encontro nos faz existir”, o evento, idealizado pelo escritor Volnei Canônica, começou no dia 12 e segue até 23 de junho, com expectativa de receber 80 mil visitantes. A programação, que se estende por 12 dias, inclui mais de 170 atividades, como rodas de conversa, sessões de autógrafos e contação de histórias, além de uma caravana que levará 900 estudantes de escolas públicas para encontros com escritores convidados.
Canônica explicou que o festival nasceu pequeno, com o objetivo de interiorizar o diálogo sobre literatura, que muitas vezes fica concentrado no Sudeste e nas capitais. “Quando a gente pensou em fazer um festival, a ideia era como trazer para o interior, como poderíamos fazer esse deslocamento de grandes nomes que pensam a literatura no Brasil para dialogar com esse público diverso, que fica mais no interior”, afirmou. Ele destacou que a segunda edição foi maior e que a terceira conseguiu se tornar internacional, com convidados do Chile, do Equador, da Colômbia e do Irã.
A decisão de estender o evento por 12 dias, segundo o organizador, visa fazer com que a discussão sobre leitura reverbera na sociedade. “Quando a gente faz um evento que não é de dois, três dias, mas de 12, é porque queremos que reverbere essa questão da leitura na sociedade, que as pessoas fiquem mais tempo falando. Porque, às vezes, quando o evento é muito curto, começamos a falar sobre um tema e acabou. E aí acaba se perdendo no meio de tantas informações e tantas questões”, disse Canônica.
A interiorização dos festivais também é fundamental para um público específico: os autores locais. Escritores que nem sempre conseguem acesso às grandes editoras ou a festivais de maior visibilidade, mas que possuem carreiras literárias consolidadas e produção reconhecida, encontram nesses eventos uma oportunidade de divulgação. A escritora Maya Falks, nascida em Caxias do Sul, é um exemplo. Autora de mais de 30 livros, incluindo títulos como “Depois de Tudo”, “Versos e Outras Insanidades”, “Histórias de Minha Morte”, “Poemas Para Ler no Front” e “Todo mundo gosta de sexo – Eu nunca fui todo mundo”, ela venceu o Prêmio Vivita Cartier em 2021 e acumula mais de 20 prêmios literários em contos, crônicas e poesias.
Maya Falks começou a escrever ainda criança, aos 7 anos, inspirada pela Turma da Mônica, e aos 14 já tentava publicar seu primeiro livro de poesias. Apesar da trajetória, ela nunca havia participado de festivais grandes pelo país. “É uma emoção que, por mais que eu trabalhe com palavras, às vezes é difícil colocar em palavras mesmo. Eu não tenho acesso aos grandes eventos, não é muito simples entrar em grandes editoras. Então, eu publico por editoras pequenas, que são maravilhosas, me abriram as portas e não tenho nada para falar de ruim delas”, afirmou. Ela atribui a falta de oportunidades a questões como distribuição e poder de mídia, que fazem diferença para alcançar mais lugares.
Para Maya, a realização de um festival internacional em sua cidade natal é uma conquista significativa. “É gigantesco e, para ser bem honesta, não tenho totalmente a dimensão da grandiosidade desse festival. Por que estou aqui? Para uma pessoa que está há tantos anos, que não conseguiu acesso, que enfim está, entre aspas, presa no interior, aqui no quintal de casa. Parece tudo tão natural quando, na verdade, é uma realização gigantesca”, comemorou. Ela também destacou o esforço da equipe, considerada pequena, para realizar um evento desse porte em uma cidade do interior. “É impressionante, é brilhante o esforço feito em cima desse festival para trazer esse povo todo. É uma equipe pequena. Isso que está acontecendo aqui é um fato extraordinário, é destacável para um cenário brasileiro de literatura, sem dúvida”.
Outra escritora local, Elaine Cavion, também nascida em Caxias do Sul, compartilha da mesma percepção. Com projetos dedicados à formação de leitores e à literatura infantojuvenil, Elaine é autora de livros como “Tempo de Navio”, “Formigas”, “O Colecionador de Águas” e “Amarelo”. Para ela, os encontros proporcionados pelo festival fortalecem as redes de leitura e são momentos “preciosos”. “Um encontro com o autor e o ilustrador é um momento em que o livro se abre, em que o público em geral conhece de onde veio aquele texto, de onde partiram as ideias”, explicou.
Elaine também ressaltou a importância da troca com outros autores, nacionais e internacionais, e do envolvimento da cidade. Ela apontou a centralização do mercado editorial e dos autores que conseguem maior projeção nacional, defendendo maior diversificação para que a literatura produzida em todo o país seja conhecida. “Estar nesse festival é essa expansão, essa troca e a oportunidade de visibilidade também, onde os escritores aqui de Caxias e região, não só eu, participam e têm a oportunidade de furar essa bolha tão central, às vezes, que o Brasil mantém no meio editorial. Então, estamos aqui, no interior do Rio Grande do Sul, escrevemos, fazemos boa literatura, premiada também”, afirmou.
O III Festival Internacional do Leitor Quindim segue até domingo (23). Maya Falks resumiu o sentimento de quem participa: “Ninguém sai perdendo nessa história. Isso que é o mais mágico de um festival dessa natureza. Todo mundo sai daqui melhor do que entrou”.
Fonte: Agência Brasil.
