
A dívida pública dos Estados Unidos alcançou um patamar inédito, ultrapassando US$ 40 trilhões pela primeira vez na história. O recorde, que chegou cinco anos antes do previsto pelo Escritório de Orçamento do Congresso (CBO), é atribuído por economistas a uma combinação de fatores: cortes de impostos para os mais ricos, inflação impulsionada pela guerra no Oriente Médio e tarifas de importação impostas pelo governo de Donald Trump.
Em apenas cinco meses, o endividamento cresceu US$ 1 trilhão, superando as expectativas de analistas. O CBO estimava que o país atingiria esse montante somente em 2027.
Para especialistas ouvidos pela Agência Brasil, a política de redução de tributos para o topo da pirâmide de renda, marca dos dois mandatos de Trump, reduziu a arrecadação e contribuiu para o déficit. Em 2025, o governo aprovou um pacote com mais cortes de impostos para ricos, que elevou a projeção do déficit em US$ 4,7 trilhões em dez anos, enquanto cortava US$ 1 trilhão da saúde pública no mesmo período.
A dívida também foi pressionada pelos gastos militares, próximos de US$ 1 trilhão, e pelo aumento dos juros da dívida, que somaram US$ 1,1 trilhão – mais que o dobro dos US$ 419 bilhões de 2021. Os juros mais altos são reflexo da inflação e do chamado “risco Trump”, que gera incertezas no mercado, como no conflito tarifário com o Canadá.
Apesar do número expressivo, economistas descartam risco de insolvência. Pedro Paulo Zahluth Bastos, professor do Instituto de Economia da Unicamp, lembra que os EUA emitem a própria moeda e têm o dólar como principal reserva mundial. “Um governo assim não quebra contra a vontade. Se o mercado não quiser esses títulos ao preço corrente, o FED pode comprá-los”, afirmou, citando ações semelhantes em 2020 e entre 1942 e 1951.
Pedro Faria, economista e doutor em história, associado ao Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG, pondera que o valor absoluto “não diz muita coisa” sobre a capacidade de pagamento. Ele lembra que as principais economias desenvolvidas vivem em déficit desde 2008.
O mercado continua comprando títulos do Tesouro americano, mas cobrando juros maiores. Os títulos de 30 anos alcançaram 5,33% em 18 de agosto, maior nível desde 2007. Para Bastos, a alta reflete a resposta do mercado aos ataques do governo Trump a pilares que sustentam a confiança nos papéis, como a autonomia do FED e a independência do Judiciário.
A dívida está concentrada em mãos domésticas: dois terços estão com americanos, US$ 4,5 trilhões com o próprio FED e US$ 8 trilhões com o governo. No mercado, restam US$ 32 trilhões, cerca de 100% do PIB, similar ao recorde de 106% de 1946.
O único risco de calote seria político, se o Congresso se recusar a elevar o teto da dívida. No entanto, o crescimento dos gastos com juros preocupa. “O único risco ligado à dívida hoje é o de juros longos mais altos”, disse Bastos, atribuindo a causa à inflação do petróleo e às tarifas.
A situação fiscal dos EUA tende a pressionar o Brasil a manter taxas de juros elevadas, segundo os especialistas. Além disso, a política econômica de Trump tem contribuído para concentrar renda: a receita do imposto sobre lucros caiu 23% no ano fiscal, e o 1% mais rico detém metade das ações do país.
Análise WeekNews: O recorde da dívida americana expõe uma escolha política: reduzir tributos dos mais ricos sem cortar gastos militares e com juros. A manutenção da confiança dos investidores, apesar do montante, sugere que o problema não é o tamanho da dívida, mas a previsibilidade das políticas econômicas. A reação do mercado, com juros longos mais altos, indica que a credibilidade institucional dos EUA é tão relevante quanto os números fiscais.
Fonte: Agência Brasil.

