
A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), encerrada em Ulaanbaatar, na Mongólia, após duas semanas de negociações, deixou um saldo de poucos avanços concretos para enfrentar a degradação que atinge até 40% das terras do planeta. O encontro, promovido pela Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD), terminou sem a criação de um regime global contra as secas e com anúncios de financiamento aquém do necessário.
A principal expectativa, a implementação de um mecanismo internacional para lidar com secas, foi adiada novamente. As discussões sobre o tema ficaram marcadas por divergências: os Estados Unidos defenderam a suspensão total do debate, europeus propuseram um acordo com mecanismos voluntários, enquanto países africanos, apoiados pelo Brasil, pressionavam por compromissos obrigatórios. Ao final, houve consenso para que a seca se torne um item permanente e independente na agenda das próximas conferências, além de garantir a continuidade das discussões entre a COP17 e a COP18, prevista para 2028 no Egito.
O clima geopolítico adverso influenciou as negociações desde o início. No primeiro dia, representantes de Washington bloquearam itens da agenda relacionados a gênero, participação da sociedade civil e integração entre as três COPs ambientais (desertificação, biodiversidade e clima), uma atitude sem precedentes na história do evento. Os temas foram reintroduzidos no programa de trabalho da próxima conferência.
A secretária-executiva da UNCCD, Yasmine Fouad, avaliou que, apesar das disputas, o resultado fortalece o diálogo multilateral. “O mais importante é que o sistema multilateral mostra não estar tão fragmentado e disperso como todos dizem. Por isso, trabalhamos arduamente para que esta COP avançasse. Talvez não tenhamos tido o pacote completo, mas certamente mantemos a possibilidade de progresso até a próxima conferência”, afirmou.
A conferência também registrou avanços paralelos. A Parceria Global de Resiliência à Seca de Riad, criada na COP16, em 2024, entrou em fase de implementação, com a primeira assembleia discutindo um fundo para apoiar cerca de 70 países de baixa e média-baixa renda. Foi lançado ainda o Mecanismo de Investimento para Resiliência à Seca (DRIF), plataforma global de financiamento dedicada ao tema, que pretende mobilizar até US$ 400 milhões em recursos públicos e privados para segurança hídrica, agricultura sustentável e recuperação de terras. O Observatório Internacional de Resiliência à Seca (IDRO) apresentou o primeiro Índice de Resiliência à Seca (DRI), ferramenta para avaliar a capacidade dos países de antecipar e se adaptar a períodos de escassez de água.
O financiamento segue como um dos maiores desafios. Segundo a UNCCD, seriam necessários cerca de US$ 355 bilhões por ano para cumprir as metas globais de restauração até 2030, mas o investimento atual é de aproximadamente US$ 77 bilhões anuais, deixando um déficit de US$ 278 bilhões. A participação do setor privado é limitada, representando apenas 6% dos investimentos. Durante a COP17, governos, bancos e empresas anunciaram uma carteira de US$ 1,3 bilhão para restauração de terras e resiliência à seca, envolvendo 23 países em cinco continentes, dos quais US$ 644,5 milhões são novos recursos e US$ 216,4 milhões já estão confirmados.
A escolha da Mongólia como sede coincidiu com o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, celebrado pela ONU em 2026. Os países reconheceram o papel dos pastores na conservação das áreas, mas as pastagens continuam sub-representadas nas políticas climáticas: aparecem nos planos nacionais de apenas 24 países, contra 181 no caso das florestas. Uma análise econômica apresentada no evento estimou que esses ecossistemas geram entre US$ 21 trilhões e US$ 47 trilhões por ano em serviços ecossistêmicos, e cada dólar investido em recuperação pode retornar entre US$ 4 e US$ 6, chegando a US$ 36 quando considerados benefícios públicos mais amplos. A Iniciativa Global sobre Pastagens, anunciada na COP17, busca transformar essa avaliação em uma carteira de investimentos.
A conferência também marcou a primeira reunião formal dos novos grupos de representação de povos indígenas e comunidades locais na convenção. Os indígenas destacaram a importância dos conhecimentos tradicionais e defenderam maior proteção dos direitos territoriais, acesso direto a recursos financeiros e participação efetiva nas decisões. Durante o evento, eles se uniram a outros grupos da sociedade civil em protestos por maior inclusão.
Análise WeekNews: O desfecho da COP17 evidencia a dificuldade de conciliar urgência ambiental e disputas políticas em um cenário internacional fragmentado. O adiamento de um regime global contra as secas e a resistência dos Estados Unidos a temas como gênero e participação social indicam que os consensos multilaterais estão cada vez mais condicionados a negociações complexas. Por outro lado, a manutenção do tema na agenda e a criação de mecanismos de financiamento, ainda que insuficientes, sugerem que a pressão por respostas concretas tende a continuar, mesmo em um contexto de avanços limitados.
Fonte: Agência Brasil.
