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Em setembro de 1936, a PRE-8, conhecida como Rádio Nacional do Rio de Janeiro, realizou sua primeira transmissão, marcando o início de uma trajetória que completaria nove décadas. A estreia ocorreu em um contexto de expansão do rádio no Brasil, quando o veículo se consolidava como principal meio de comunicação de massa.
A origem da emissora está ligada ao jornal ‘A Noite’, que circulava na então capital federal. O grupo enfrentava dificuldades financeiras e, em 1931, foi vendido à Companhia Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande. Entre os bens adquiridos, estava uma concessão de rádio. Na época, o país tinha cerca de 70% de analfabetos, e o rádio se apresentava como um meio acessível a todos, independentemente da capacidade de leitura, como explica a historiadora Lia Calabre.
Em 1933, foi criada a Sociedade Civil Brasileira Rádio Nacional. Três anos depois, o grupo adquiriu um transmissor de 20 quilowatts, que pertencera à extinta Rádio Philips, com o objetivo de disputar a liderança do mercado radiofônico. Para isso, a emissora reuniu nomes como Orlando Silva, Aracy de Almeida, Celso Guimarães, Ismênia dos Santos, Oduvaldo Cozzi e Radamés Gnattali. A divulgação da nova rádio incluiu uma chuva de panfletos lançados de um avião sobre o Rio de Janeiro.
Apesar do investimento, os primeiros anos foram difíceis. O ex-diretor Osmar Frazão lembra que os transmissores tinham alcance limitado, não chegando nem à Zona Sul do Rio, o que levou os primeiros cantores contratados a deixarem a emissora após três meses.
A situação mudou em 1940, quando Getúlio Vargas incorporou a Rádio Nacional e as demais empresas do grupo A Noite ao patrimônio da União. A professora Izani Mustafa explica que a medida ocorreu após uma dívida da empresa com o governo federal, e que Vargas já pensava no uso do rádio como ferramenta de comunicação.
Com a encampação, o empresário Gilberto de Andrade assumiu a administração e promoveu mudanças que transformaram a emissora em um fenômeno de audiência. O elenco foi ampliado, foram criados mecanismos de medição de audiência e a rádio passou a investir em transmissões de ondas curtas. Em 1942, cinco antenas permitiram levar o sinal para praticamente todo o Brasil e para países das Américas, Europa, África e Ásia, consolidando a Rádio Nacional entre as maiores do mundo.
No mesmo ano, os estúdios foram reformados e um auditório com quase 500 lugares foi criado, onde o público acompanhava concursos, apresentações musicais e shows de calouros. Programas como o Show dos Calouros, de César de Alencar e Paulo Gracindo, atraíam multidões ao prédio do jornal A Noite. O historiador Luiz Antonio Simas destaca a diversidade das atrações, que iam de shows musicais a concursos, e o sucesso do formato de calouros, que chegou a lotar o auditório.
Uma característica marcante da programação era que nem todo programa precisava dar lucro. Paulo Tapajós afirma que a rádio nunca se preocupou com o retorno financeiro de cada atração, o que permitiu manter uma orquestra sinfônica com 120 músicos, por exemplo.
A Rádio Nacional apostou em música, comédia, radiodramaturgia e esporte, construindo uma história que segue sendo contada.
Análise WeekNews: O caso da Rádio Nacional ilustra como a combinação de investimento estatal e liberdade criativa pode gerar um impacto cultural duradouro. A decisão de não submeter toda a programação à lógica comercial permitiu a existência de atrações de alto custo, como a orquestra sinfônica, que contribuíram para a qualidade e a diversidade que marcaram a emissora. Essa trajetória sugere que a sustentabilidade de um veículo de comunicação pode ser pensada para além do lucro imediato, priorizando o valor cultural e a relevância pública.
Fonte: Agência Brasil.
