
O programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, exibe nesta segunda-feira (7), às 23h30, o episódio “Cidade Selvagem, Fauna Urbana”, que investiga como a vida silvestre resiste e se adapta à expansão urbana na cidade de São Paulo, a maior metrópole da América Latina. A atração, premiada e no ar desde 2008, apresenta iniciativas de recuperação e preservação da fauna e flora nativas na capital paulista.
A reportagem mostra que, apesar da transformação profunda da paisagem pela presença humana, a cidade ainda abriga animais silvestres sob o asfalto e acima dos prédios. Registros históricos e nomes de lugares preservam a memória da fauna nativa: os povos originários batizaram regiões com referência a animais, como M’Boi Mirim (cobra pequena, em referência à Dormideira), Rio Tamanduateí (que rememora o tamanduá-bandeira) e Tatuapé (caminho do tatu).
Na Terra Indígena Jaraguá, 45 famílias Guarani mantêm uma relação sustentável com o território e forte vínculo espiritual com os animais. A liderança tradicional Márcio Mendonça Boggarim, também conhecido como Guarani Karaí Werá Mirim, destacou a importância das abelhas nativas sem ferrão para a cultura local: “Todos os animais, para nós Guarani, são considerados sagrados. O Guarani se fortalece mentalmente por meio dessas espécies nativas, principalmente a Jataí. A gente utiliza a cera, a própolis e o mel para fazer batismo e curar pessoas doentes”, afirmou.
O ornitólogo Luís Fábio Silveira, diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP), lembrou que a região era marcada por uma transição geográfica singular: “Tinha essa mescla de Mata Atlântica com campos naturais, tanto que a cidade, antes de chamar São Paulo, se chamava São Paulo dos Campos de Piratininga”, informou.
A degradação histórica das matas também motivou iniciativas privadas de restauração. No extremo sul da cidade, dentro da APA Capivari-Monos, Jayme Roso reconstruiu, na década de 1960, uma área desmatada que deu origem à Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Sítio Curucutu. “Quando eu cheguei aqui não tinha nada. Acredito que tenha plantado umas 650 mil mudas”, ilustrou. Sua filha e gestora da reserva, Ana Roso, explicou que o trabalho de reflorestamento hoje é feito pelos próprios animais: “Meu pai reflorestou no passado, mas depois a anta fez o trabalho dela: ela come frutos maiores e vai dispersando as sementes, ajudando a reflorestar”, contextualizou.
De acordo com o Inventário da Fauna Silvestre de São Paulo, o município possui 1.475 espécies de animais catalogadas, das quais 223 estão ameaçadas de extinção. Para socorrer a fauna vitimada pelo tráfico, atropelamentos, choques elétricos e linhas de pipa com cerol, o Centro de Manejo e Conservação de Animais Silvestres (Cemacas) opera em duas unidades: uma no Parque do Ibirapuera e outra no Refúgio de Vida Silvestre Anhanguera. O médico veterinário Felipe Lucato apontou a dimensão do trabalho: “O número anual de animais que a gente recebe é em torno de 13 mil. Na alta temporada, chegamos a receber até 2 mil animais por mês”, contou. Nem todos os espécimes conseguem retornar ao habitat natural, pois o manejo humano inadequado e as sequelas do tráfico ilegal impedem a soltura.
A preservação da fauna também ganha força com a participação da sociedade por meio da ciência cidadã. A fotógrafa e educadora Paula Romano transforma registros de insetos em dados para pesquisadores na plataforma iNaturalist. Com mais de 24 mil postagens, ela já auxiliou na descrição de espécies e no mapeamento de animais ameaçados. “Felizmente, agora, a gente tem visto muitos pesquisadores usando esse material. A minha autoestima é lapidada a partir disso”, enfatizou.
A observação do ambiente urbano pode ainda converter cenas comuns em manifestações artísticas. Ao registrar pássaros pousados em fios elétricos em Santana do Livramento (RS), o repórter fotográfico Paulo Pinto capturou uma imagem que chamou a atenção do diretor de arte e músico Jarbas Agnelli. “Cinco fios é o mesmo número de linhas numa partitura. Fui pro piano e interpretei aquilo”, mencionou. A composição e o vídeo resultantes alcançaram milhões de visualizações. Quinze anos depois, Jarbas e Paulo voltaram à cidade para fazer nova sinfonia. O projeto, conhecido como Sinfonia da Energia, contou com outras 60 fotografias de diversos lugares do mundo, em parceria com a Agência África Creative e a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee). Neste ano, a campanha conquistou o Leão de Ouro no Festival Internacional de Criatividade de Cannes. “Qual não foi nossa surpresa ao verificar que os pássaros já não estavam mais lá, porque o dono da casa que alimentava os passarinhos já tinha ido embora também. E a mãe que indicou também já não estava mais aqui. Então, diante de tudo isso, o que ficou de lição? Que nós temos que aproveitar o momento”, refletiu Paulo.
O Caminhos da Reportagem é exibido às segundas, às 23h30, com horário alternativo na madrugada para terça, às 3h. As edições estão disponíveis no site do programa, no YouTube da emissora e no aplicativo TV Brasil Play.
Análise WeekNews: A abordagem do programa evidencia um movimento crescente de reconhecimento da fauna urbana como parte do ecossistema das grandes cidades. A combinação de dados científicos, como o inventário com mais de 1,4 mil espécies, com ações de restauração e ciência cidadã sugere que a preservação ambiental em centros urbanos depende cada vez mais da integração entre poder público, iniciativa privada e participação social. O episódio também reforça o papel da memória cultural e dos povos originários na valorização da biodiversidade local, o que tende a ampliar o debate sobre políticas públicas de conserv
Fonte: Agência Brasil.
