
Há 30 anos, em 11 de setembro de 1996, a família de Carlos Marighella recebeu o atestado de óbito em que o Estado brasileiro assumia, pela primeira vez, a responsabilidade pela morte do ex-deputado federal e guerrilheiro, assassinado em 4 de novembro de 1969 em uma emboscada em São Paulo (SP) feita por agentes da ditadura. O documento foi emitido nos termos da Lei 9.140, sancionada em 1995, que criou a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.
Para Carlos Augusto Marighella, o Carlinhos, filho do guerrilheiro, o reconhecimento foi o primeiro passo de reparação da imagem do pai. Hoje advogado e com 78 anos, ele tinha 20 quando soube do assassinato: foi chamado por jornalistas da Tribuna da Bahia para reconhecer uma imagem que chegou pelo telex, mostrando o corpo do pai crivado de balas. Depois disso, diz, passou a ser perseguido de diferentes formas por causa do sobrenome.
Ele destaca que o reconhecimento teve peso para além da dor pessoal, porque muitas vítimas do período militar não podiam ter acesso a bens por estarem desaparecidas. No caso de Marighella, o corpo foi inicialmente sepultado como indigente. Só em 1979, após a Lei de Anistia, os restos mortais foram transportados para Salvador (BA), cidade natal do guerrilheiro. “Muitos dos companheiros que lutaram ao lado de meu pai não tiveram a dignidade de um sepultamento”, afirmou.
No ano passado, a família recebeu um novo documento, retificado, com mais informações do que a simples citação da lei. A atual presidente da comissão, Eugênia Gonzaga, explica que a retificação corrigiu omissões. No caso de Marighella, o atestado não trazia, por exemplo, que ele foi casado na clandestinidade com a ativista Clara Charf, morta em 2025. “Quando fizemos a retificação, conseguimos fazer a retificação para contar que a viúva, a companheira dele, era a Clara”, disse. Quando a família recebeu o documento, outros 62 foram entregues. Segundo Eugênia, a Comissão Nacional da Verdade padronizou esses dizeres como morte não natural, violenta, decorrente da perseguição política do Estado brasileiro.
O primeiro presidente da comissão, o jurista Miguel Reale Júnior, recorda que a admissão de culpa pelo Estado, em 1996, foi um dos momentos mais importantes do grupo. Ele pondera que, no caso de Marighella, foi possível desmistificar as cenas montadas pela polícia como confronto, quando houve, na verdade, fuzilamento. “Havendo assassinato de pessoa sob controle [policial], configura responsabilidade do Estado.”
O então presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Nilmário Miranda, lembra que houve resistência na época em relação à reparação a Marighella. “O objetivo não era punir pessoas, mas reconhecer que o Estado foi responsável”, afirmou. Na mesma decisão sobre Marighella, foi feita a certidão de óbito de Carlos Lamarca, capitão desertor do Exército que atuou na guerrilha. Miranda, que detalhou as ações da comissão no livro Dos Filhos deste Solo, recordou que Carlinhos e Clara Charf atuaram para pedir justiça à memória de Marighella. “Lutavam dia e noite, dia após dia, para que houvesse reconhecimento.”
Para Carlinhos, a reparação não se sustenta apenas com ações que resolvam problemas legais, mas precisa servir como lição para a sociedade não aceitar golpes e prezar pela democracia. “A gente ainda tem um longo caminho a percorrer. E o modo correto disso é conscientizar, sobretudo, a nossa juventude”, disse. Ele deseja que a luta do pai pelo país seja mais conhecida. No mês passado, a família se emocionou com a outorga simbólica do diploma de engenheiro a Marighella pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ele estudou quatro anos na Escola Politécnica e não concluiu o curso por causa das ações contra a ditadura. “Ele foi considerado um dos 10 alunos mais brilhantes. No último ano, ele foi preso e não pôde fazer as provas finais. A preservação da memória é fundamental”, disse.
Marighella não deixou bens, e o filho lamenta as incursões à casa da família, de onde tudo foi levado. “Nunca conseguimos recuperar a vasta produção intelectual de meu pai, como música, poesias e discursos. Tudo isso foi recolhido e nunca foi devolvido.” Ainda assim, sonha com um memorial que faça justiça à memória do guerrilheiro. Carlinhos recorda os contatos afetuosos com o pai, que precisava sumir de vez em quando. Em maio de 1964, no mês seguinte ao golpe, Marighella ia à escola toda semana. “Ele estava de jeans, uma camisa colorida e de peruca. A gente ia numa padaria próxima para comer sanduíche de mortadela.” O filho enfatiza que o pai, embora convivesse com a tensão do período, não era uma pessoa deprimida. “Nunca vi nele um olhar de desânimo.” E completa: “Confesso que, com tudo isso, com meu pai preso e depois assassinado, expulso da escola com 15 anos, impedido de estudar em escolas de Salvador, demitido do meu emprego [na Petrobras], alvo das maledicências, me considero uma pessoa feliz. Aprendi isso com ele. Ser feliz e lutar.
Fonte: Agência Brasil.
