
A Anistia Internacional anunciou que denunciará o presidente da Argentina, Javier Milei, à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) por hostilidade contra jornalistas. A decisão foi tomada após o mandatário xingar profissionais que produziram reportagens investigativas sobre ele e afirmar que eles deveriam “queimar na fogueira”.
As declarações ocorreram na semana passada, depois que a Justiça argentina arquivou, na sexta-feira (23), o caso conhecido como “criptogate”, aberto em fevereiro de 2025. A investigação apurava suspeita de participação de Milei e de outras pessoas, entre elas sua irmã, Karina Milei, em um esquema de irregularidades na criação da criptomoeda $Libra. O presidente teria usado redes sociais para promover o ativo virtual. O juiz federal Marcelo Martínez De Giorgi, no entanto, concluiu que não houve delitos.
Em discurso, Milei citou nominalmente os jornalistas Hugo Alconada Mon, Carlos Pagni, Paulino Rodrígues, Natalia Volosin e Luis Novaresio e os desqualificou. Chamou o grupo de “empacotados, corruptos, mercenários da mentira e fabricantes seriais de operações” e, em seguida, declarou que “os que têm que queimar na fogueira são os filhos da p*”. No X, o presidente escreveu que foi alvo de uma “tremenda operação política e midiática cujo único objetivo era prejudicar a presidência para fins políticos de conspiração golpista” e voltou a classificar os jornalistas como “subornados e mercenários da mentira”.
Para a Anistia Internacional, as falas aprofundam o assédio à imprensa, colocam em risco quem informa e deterioram as garantias do debate democrático. A entidade considera que a referência a queimar na fogueira evoca violência extrema e representa uma “escalada grave e inadmissível na hostilidade presidencial contra a imprensa”. “Não se limita a questionar uma cobertura jornalística, mas individualizam e estigmatizam jornalistas”, afirmou a organização.
A diretora-executiva da ONG na Argentina, Mariela Belski, disse que, ao apontar publicamente jornalistas e usar imagens de violência para se referir a quem questiona sua gestão, o presidente contribui para gerar um clima de intimidação que pode abrir caminho para novas agressões. “O cargo que ocupa exige uma responsabilidade reforçada: deve garantir que a imprensa possa investigar e informar com liberdade e segurança. O assédio por parte do poder deteriora as condições do debate democrático e afeta o direito de toda a sociedade de estar informada”, declarou.
A denúncia será acompanhada pela Federação Argentina de Trabalhadores de Imprensa, segundo informou à Agência Brasil a jornalista Carla Gaudensi, secretária da entidade. O Sindicato de Imprensa de Buenos Aires também divulgou nota de repúdio, na qual afirma que Milei “voltou a ultrapassar um limite gravíssimo”. Para o sindicato, a incitação a “queimar na fogueira” um grupo de jornalistas deve provocar reação imediata de todo o espectro político e midiático. “Não haverá espaço para lamentações se a violência promovida pelo presidente acabar se transformando em fatos concretos”, publicou.
A ONG fundamenta a acusação de deterioração das condições para o jornalismo no país com dados do Monitoramento da Liberdade de Expressão do Fórum de Jornalismo Argentino. O levantamento registrou 278 casos de ataques contra jornalistas em 2025, aumento de 55% em relação a 2024 e o maior número desde o início dos registros, em 2008. Milei foi identificado como autor de 119 desses episódios, o que o coloca como principal agressor individual. O monitoramento contabilizou ainda 139 casos de discursos estigmatizantes, 20 ações judiciais contra jornalistas e 28 restrições de acesso à informação.
A Anistia Internacional alerta que a repetição dessas práticas pode gerar um efeito silenciador que ultrapassa as pessoas diretamente atacadas, desestimulando investigações, favorecendo a autocensura e empobrecendo a circulação de informações de interesse público. “Investigar a atuação daqueles que governam é uma função essencial do jornalismo e garantia para o controle democrático do poder”, sustenta a entidade.
A organização lembra que, em novembro de 2025, participou ao lado de organizações de direitos humanos, entidades jornalísticas e sindicatos de imprensa de uma audiência sobre a situação da liberdade de expressão na CIDH. Na ocasião, foram denunciados o aumento das agressões, a violência on-line, o assédio judicial e os ataques durante a cobertura de protestos. A comissão solicitou informações ao Estado argentino e manifestou interesse em realizar uma visita ao país.
Análise WeekNews: A decisão da Anistia Internacional de levar o caso à ONU e à CIDH amplia o alcance institucional de um episódio que, até aqui, estava restrito ao debate político argentino. Os números do monitoramento citado pela ONG indicam que os ataques à imprensa cresceram no período recente e que o presidente aparece como principal autor individual de episódios registrados. O encaminhamento a instâncias internacionais não implica punição automática, mas tende a manter o tema na agenda de organismos de direitos humanos e a pressionar por respostas do Estado argentino.
Fonte: Agência Brasil.
