
A professora e historiadora baiana Vera Lacerda, de 79 anos, lembrou com detalhes os sentimentos que a levaram a fundar, em março de 1980, o bloco e o instituto Ara Ketu, no bairro periférico de Periperi, em Salvador (BA). A iniciativa, que se tornou referência nacional e internacional, nasceu do inconformismo com as injustiças sociais na região do subúrbio ferroviário. Ao lado do primo Augusto César (falecido em 2016), Vera transformou a música e o carnaval em ferramentas de impacto social, como compartilhou na sexta-feira (3) durante o Festival Latinidades, em Brasília (DF).
O nome da agremiação homenageia a cidade de Ketu, no Benim, uma das regiões de onde foram traficadas mais pessoas escravizadas para o Brasil. Mestre em filosofia, Vera descobriu que poderia usar a música como instrumento de transformação e inclusão social. “Minha luta era tirar os meninos do tráfico de drogas e da marginalidade. Eu consegui muito”, orgulha-se em entrevista à Agência Brasil.
Segundo a fundadora, mais de três mil jovens já realizaram cursos profissionalizantes, tanto na área musical quanto em outras atividades. O bloco ganhou reconhecimento em todo o Brasil e também no exterior. No entanto, Vera, que completará 80 anos em setembro, afirma que o maior reconhecimento vem quando recebe ligações de pessoas que passaram pelo bloco e pelo instituto para agradecer pelo trabalho que conseguiram graças aos cursos realizados.
Pelo trabalho social que combina música e cidadania, Vera Lacerda foi agraciada pela Academia Brasileira de Letras com o título de “comendadora”, reconhecimento que extrapolou os limites da Bahia.
A trajetória de Vera inspira também a presidente de outro bloco tradicional de Salvador, o Didá, localizado na comunidade do Pelourinho. A banda e agremiação é exclusivamente voltada para mulheres. Débora Souza, de 48 anos, presidente desde 2009, é filha de Antônio Luiz Alves Souza, mais conhecido como Neguinho do Samba, fundador do Didá. Débora conta que mais de cinco mil mulheres já passaram pelo bloco. “Através do tambor, nós passamos toda a lição. Nossas alegrias, nossos sentimentos e nossas reivindicações”, afirma. Ela acrescenta que a ideologia principal da agremiação é garantir a liberdade para todas as mulheres. “No bloco, a gente se sente empoderada. Armada com meu tambor, eu me sinto uma rainha.”
Na mesma mesa de debates do Festival Latinidades, esteve a cantora e radialista Denise Oliveira, que atua como produtora da Rádio Nacional (da EBC). Nascida e criada na região administrativa de São Sebastião (DF), área periférica nos arredores de Brasília, Denise destacou a importância de movimentos culturais como o Ara Ketu e o Didá. “Graças a movimentos culturais como o Ara Ketu e o Didá, há transformação efetiva com novas perspectivas para as vidas das pessoas.”
Denise também ressaltou o papel da arte na autoidentificação como pessoa preta. “Graças à arte, eu pude me encontrar como mulher negra, artista e trabalhadora de cultura desde os meus 15 anos de idade.” Ela lembrou que as mulheres sempre estiveram na base da construção de iniciativas culturais como os blocos afros. “Eu cresci em movimento cultural na periferia. Depois virei cantora de samba.”
Além da carreira artística, Denise criou o projeto “Vozes da Diversidade”, um programa independente e voluntário no qual entrevistava artistas periféricos do Distrito Federal. O projeto foi indicado ao prêmio WME da Billboard em 2024, premiação que reconhece histórias de empoderamento e representatividade feminina. “Fui uma das cinco radialistas do país indicada”, comemorou.
O Festival Latinidades, que reuniu artistas e ativistas em Brasília, reforçou o papel transformador da cultura afro-brasileira nas periferias, com exemplos concretos de inclusão social e empoderamento feminino, como os blocos Ara Ketu e Didá.
Fonte: Agência Brasil.
