
A Rua João de Barros, localizada na Barra Funda, em São Paulo, foi oficialmente rebatizada como Rua do Samba no dia 28 de julho. O logradouro, que possui apenas uma quadra, é palco de rodas de samba desde a década de 1980, quando Carlos Alberto Tobias promovia encontros musicais no local. A nova denominação, no entanto, vai além do reconhecimento do gênero musical: representa um resgate da memória da população negra no bairro, especialmente da família da cantora e compositora Simone Tobias, filha de Carlos Alberto e neta de seu Inocêncio, que em 1953 reorganizou um antigo grupo carnavalesco que mais tarde se tornaria a Escola Camisa Verde e Branco.
Simone Tobias relembra a trajetória familiar ligada ao samba e ao carnaval paulistano. Segundo ela, em 1914, seu Dionísio Barbosa, tio de sua avó paterna, fundou o grupo carnavalesco Barra Funda. Em 1953, seu avô, Inocêncio, iniciou um movimento para reunir pessoas e criar um novo cordão, usando as cores primárias do Grupo da Barra Funda como forma de homenagear Dionísio. A neta explica que o avô adotou o apelido “camisas verdes”, mas acrescentou o branco para evitar que o grupo fosse confundido com os integralistas, movimento político da época.
Os ensaios do grupo aconteciam em frente à casa da família Tobias, um porão localizado em um antigo cortiço que já não existe mais. Simone destaca que o senso de comunidade e pertencimento foi profundamente afetado pela especulação imobiliária, que, ainda no final da década de 1970, empurrou os moradores para longe do bairro. Ela própria, na década de 1980, mudou-se com a família para a periferia da zona norte de São Paulo. “Mesmo para a minha família, que na década de 80 foi morar na periferia da zona norte, ficava inviável entender como é essa loucura, né? Essa higienização, novamente feita para que a negritude fosse colocada nas periferias da cidade”, lamenta.
Em meio a esse processo de apagamento histórico, surgiu o projeto Cartografias de Bambas, coordenado por Nathália Oliveira, com o objetivo de valorizar a memória negra do samba no bairro antes que a gentrificação apague de vez sua história. Nathália ressalta que o movimento diz mais sobre o pertencimento a um território do que apenas à musicalidade. “O samba entendido apenas como um som é esvaziar totalmente de sentido a construção dessa história. Quando a gente reconhece um bairro que está cada vez mais embranquecendo, é ir apagando o legado, né?”, questiona.
Para Nathália, o reconhecimento oficial da Rua do Samba é um momento para provocar uma discussão na cidade sobre como as pessoas negras permanecem em seus lugares de memória construídos pelos antepassados. Ela defende que a memória também é uma política pública e que o novo nome do logradouro deve servir como um marco para a preservação da história negra na região.
Uma das iniciativas que contribuem para a permanência e a memória da comunidade negra na Barra Funda é o Festival Cartografias de Bambas, que reúne mensalmente sambistas e coletivos culturais na Rua do Samba. Segundo Nathália, o evento reconecta as pessoas com o território e tem atraído um público cada vez mais diverso. “E o que a gente vem percebendo é que cada vez mais chegam pessoas negras de lugares diferentes da cidade, de várias idades. Então, tem muita gente mais velha que já veio aqui e fala que quer voltar a frequentar os nossos eventos”, conta. Ela revela que o festival já ocorre há oito meses e que o público “cada vez mais vai enegrecendo”.
Antes da Rua do Samba, outro ponto já reconhecia a Barra Funda como berço do samba paulistano: o Largo da Banana. Ali, estivadores negros se reuniam no final do século 19 para cantar e tocar o que daria origem ao samba na cidade. No entanto, na década de 1950, foi construído um viaduto no local, e do lugar de memória restou apenas uma placa. A comparação evidencia a importância da nova denominação para a preservação da história afro-brasileira em São Paulo.
O projeto Cartografias de Bambas, em seu manifesto Rua do Samba da Barra Funda, reforça que memória também é política pública e que a Rua do Samba deve permanecer como “patrimônio vivo, chão de memória e encruzilhada de futuros”. A iniciativa busca, assim, garantir que as futuras gerações conheçam e valorizem a contribuição da população negra para a cultura e a história da cidade.
Fonte: Agência Brasil.
