Mulheres seguem sub-representadas na direção de filmes e séries no Brasil, aponta Anuário do Audiovisual

Mulheres seguem sub-representadas na direção de filmes e séries no Brasil, aponta Anuário do Audiovisual
Fonte da imagem: Agência Brasil


A participação feminina nos cargos de liderança do cinema e do audiovisual brasileiro continua abaixo de 20%, apesar de as mulheres representarem a maioria nas atividades de exibição e distribuição e de serem maioria entre os formados em cursos da área. Os dados são do Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro de 2024, elaborado pelo Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA) e publicado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). Para a produtora Minom Pinho, diretora da Associação Paulista de Cineastas (Apaci) e coordenadora e idealizadora do Festival Internacional de Mulheres no Cinema (FIM Cine), a mudança desse cenário depende de políticas públicas que estabeleçam metas claras de participação feminina.

Em entrevista à Agência Brasil durante o festival de cinema Bonito CineSur, realizado em Bonito (MS), Minom Pinho defendeu que as grandes transformações no setor só virão por meio de políticas públicas. “As grandes mudanças se fazem com política pública”, afirmou. “E para você alcançar a política pública, você tem que ter indicador e indutor. O que significa isso? Por exemplo, estipular que o número de mulheres em roteiro e direção em longas-metragens deve bater 30% até 2030. A gente vai ter que entender que é preciso estabelecer metas mais claras porque o cinema é uma zona de resistência muito grande.”

Bonito - 01/08/2026 -  Minon Pinho no Festival de cinema Sul-americano de Bonito. Foto: Divulgação
Fonte da imagem: Agência Brasil

A produtora destacou que, há anos, a participação feminina em cargos de liderança não ultrapassa 20%, mesmo com as mulheres tendo maior formação que os homens e conseguindo atrair grandes públicos aos cinemas brasileiros. “Ninguém pode alegar que as mulheres não têm competência. Elas estão fazendo um milagre. Foi dado a elas 20% [de cargos de liderança] nos filmes, mas elas estão pegando 44% do mercado. Isso quer dizer que elas estão fazendo muito com a pior situação possível”, enfatizou.

Os números do anuário mostram que, embora as mulheres sejam maioria nas atividades de exibição (58%) e distribuição (54%), elas representam apenas 17% da direção de séries e filmes brasileiros. Em 2023, dos longas-metragens brasileiros produzidos, 231 foram dirigidos exclusivamente por homens, enquanto apenas 52 tiveram direção feminina. No caso dos roteiros, o domínio masculino também é evidente: 165 roteiros foram escritos por homens contra 41 por mulheres.

Em contrapartida, as mulheres são maioria em funções como direção de arte (99 contra 57) e produção executiva (110 contra 66). Para Minom Pinho, essa distribuição reflete um estereótipo de gênero. “Esse é o lugar que a sociedade convencionou que é o nosso lugar, o lugar das mulheres. Temos aí a direção de arte ou figurino, por exemplo, porque ‘arte é coisa de mulher’. Isso é um estereótipo absurdo. Temos sim excelentes diretoras de arte. Mas o número de diretoras de filmes precisa crescer”, apontou.

A produtora ressaltou ainda a importância de mais mulheres na condução das narrativas audiovisuais. “A gente quer estar em todos os lugares. Mas quando você tem uma ideia, escreve essa história e tem uma mulher dirigindo essas histórias e escolhendo as imagens que vão configurar naquela peça ou naquela obra audiovisual, isso faz muita diferença”, disse.

O debate sobre o protagonismo feminino no cinema sul-americano também foi tema de uma mesa realizada no último domingo durante o Bonito CineSur. Além de Minom Pinho, participaram a atriz chilena Paulina Garcia e Gabriela Sandoval, diretora e produtora de indústria do Festival Internacional de Cinema de Santiago (Sanfic). Paulina Garcia defendeu a necessidade de mais histórias contadas e interpretadas por mulheres, com personagens mais complexas. “Para as mulheres, existem mais coisas do que desempenhar papéis de pessoas doentes ou que morrem a certa idade. Também há mais coisas do que se apaixonar por um homem mau ou um homem perdido ou ser filha de alguém. Precisamos contar com histórias mais complexas sobre quem somos ou sobre o que queremos fazer”, afirmou.

Gabriela Sandoval, por sua vez, destacou a importância da união das mulheres do continente para fortalecer a participação feminina nas produções sul-americanas. “Creio que essa construção de uma rede é importantíssima”, disse. “Quando se fala em mulheres em espaços de poder, sempre se vê como algo negativo. Mas o espaço de decisão é uma responsabilidade e abre caminhos para que se contem outras histórias.”

Minom Pinho também expressou seu desejo de alcançar a equidade de gênero no setor em um prazo de dez anos. “Meu sonho é a gente chegar em equidade nos próximos 10 anos. Meu sonho é que a gente saia desse atual patamar”, concluiu.

Fonte: Agência Brasil.

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