
A produção diária de refeições quentes na Faixa de Gaza vai cair de forma “significativa” a partir deste mês, segundo o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (Ocha). O motivo é a falta de financiamento: apenas 40% dos US$ 4 bilhões solicitados para ajuda humanitária na Palestina ocupada foram efetivamente transferidos.
O órgão calcula que 1,4 milhão de pessoas — 67% da população de Gaza — devem enfrentar níveis de insegurança alimentar aguda entre julho e dezembro. A redução das refeições quentes agrava um cenário que já vinha se deteriorando.
O impasse político em torno do chamado “plano de paz” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, segue sem solução. Para o professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Bruno Huberman, o nó central é a ordem das exigências: o Hamas só aceita se desarmar depois que Israel deixar Gaza, o que não tem ocorrido.
“Para Israel desocupar Gaza, eles falam que o Hamas tem que se desarmar. A gente está nesse impasse, e os EUA não estão se colocando para destravar esse impasse”, afirmou o coordenador do Grupo de Estudos de Conflitos Internacionais (Geci) da PUC-SP.
Segundo Huberman, Israel também impede o retorno a Gaza do “comitê tecnocrático” de palestinos sem ligação partidária que seria responsável por monitorar a reconstrução do território. Esses palestinos foram ao Cairo discutir a reconstrução de Gaza em novembro do ano passado, quando Trump anunciou o plano de paz, e desde então estão exilados no Egito porque Israel proíbe sua entrada em Gaza.
“Isso é um exemplo de como Israel impede qualquer esforço para reconstrução”, disse o professor. Sobre o estado de ânimo da população, ele relatou: “Os palestinos sempre foram muito famosos por manter um brio na resistência muito grande, apesar de qualquer revés. Mas o pouco contato que tenho com os palestinos que estão lá, e também com os palestinos que vivem fora e vão visitar, é uma desesperança que, para mim, é inédita.”
Cisjordânia
Especialistas consultados destacam que a colonização na Cisjordânia se acelerou desde 7 de outubro, com a expansão da violência no território. “A Cisjordânia vem acompanhando a expansão desenfreada dos colonos, dos assentamentos e a tentativa de expulsão dos palestinos das próprias casas. A violência de colonos contra a população palestina tem a anuência do próprio Estado israelense”, ponderou Isabela Agostinelli.
Israel costuma justificar suas ações na Cisjordânia como parte do “combate ao terrorismo”, ao mesmo tempo em que o governo de Benjamin Netanyahu não tem reconhecido o direito dos palestinos às terras da região.
Huberman destacou que os ataques de colonos israelenses na Cisjordânia têm aumentado o isolamento do chefe da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. “Diante da impossibilidade de o político palestino mais popular ser solto, que é Marwan Barghouti, temos visto uma ala mais à esquerda do Fatah [partido do Abbas] buscando se aliar com a Jihad islâmica e o Hamas para as próximas eleições para um governo de coalizão nacional que, de alguma forma, busque substituir Abbas”, informou.
Quase 20 anos depois da última eleição legislativa, a Autoridade Palestina marcou para 28 de novembro a votação para definir o Parlamento que pode substituir Abbas na chefia da organização palestina sediada na Cisjordânia.
Análise WeekNews: O quadro descrito combina uma crise humanitária mensurável — corte de refeições quentes e insegurança alimentar atingindo dois terços da população de Gaza — com um impasse diplomático em que cada lado condiciona seu passo à ação prévia do outro. A ausência de um mecanismo que destrave essa sequência mantém tanto a reconstrução quanto a própria ajuda humanitária reféns do mesmo bloqueio. A eleição legislativa palestina marcada para novembro, por sua vez, ocorre em um ambiente de isolamento de Abbas e de articulação de uma frente alternativa dentro do próprio Fatah, o que sugere que a disputa interna palestina tende a se intensificar antes mesmo da votação.
Fonte: Agência Brasil.
