
A polícia da Bolívia prendeu, na noite de quarta-feira (30), o procurador-geral da República do país, Roger Mariaca, que conduzia a investigação contra o operador digital argentino Fernando Cerimedo. Até a manhã desta quinta-feira (1º), outras 13 autoridades bolivianas também haviam sido detidas sob acusações de tráfico de drogas e organização criminosa, entre elas o ex-ministro do governo anterior Eduardo Del Castillo e o procurador do departamento de Santa Cruz, Alberto Zeballos.
Segundo o ministro do governo de Rodrigo Paz, Marco Antonio Oviedo, Mariaca liderava uma organização criminosa infiltrada no sistema de Justiça. “Foi desmantelada uma organização criminosa infiltrada no sistema de Justiça e na administração de uma instituição muito importante do nosso país — o Ministério Público —, a qual, sob a liderança de Roger Mariaca, transformou-se em uma organização criminosa voltada a proteger e incentivar o narcoterrorismo no país”, afirmou Oviedo, que divulgou imagens de policiais retirando pacotes com dinheiro de um fundo falso de um veículo apontado como tendo relação com a residência de Mariaca. O ministro ainda vinculou o grupo aos protestos que paralisaram a Bolívia por mais de 50 dias entre maio e junho deste ano e pediam a renúncia de Paz.
Após as prisões, uma transmissão ao vivo pelas redes sociais do Ministério Público boliviano denunciou o “sequestro” de Mariaca e Zeballos sem mandado judicial. “O procurador-geral do Estado foi retido no Aeroporto de Viru Viru de maneira informal, sem qualquer documento ou ordem de prisão que pudesse esclarecer a razão dessas ações policiais ilegais que vêm ocorrendo em nosso país”, informou uma servidora não identificada em meio a policiais mascarados.
Mariaca e Zeballos estavam na lista de bolivianos que tiveram os vistos de entrada nos Estados Unidos revogados pela administração de Donald Trump na última segunda-feira (28). Ambos foram acusados por Washington de corrupção ou narcotráfico, sem que fossem apresentadas provas. Após ter o visto cancelado, o então procurador-geral sugeriu que a medida era uma retaliação pelas investigações que conduzia, em especial o caso Cerimedo. “Sabemos também que algumas investigações têm implicações que transcendem as fronteiras nacionais. O caso denominado Cerimedo, por exemplo, gerou preocupações e repercussões em diferentes âmbitos políticos”, afirmou.
Questionado se a operação contra o procurador-geral nomeado no governo anterior teve participação dos EUA, Oviedo disse que a ação foi conduzida pela política local, mas com apoio de outros países. “Devo agradecer pela cooperação do governo americano que, por meio das suas agências, cooperam na luta contra o narcoterrorismo. O mesmo com os países da União Europeia e o mesmo com os países vizinhos com os quais temos fronteiras”, respondeu.
Eleito pelo parlamento boliviano em 2024, durante o governo de esquerda de Luis Arce, Mariaca deveria cumprir mandato de seis anos. Após as acusações do governo Trump, o Congresso da Bolívia convocou uma sessão para o próximo dia 5 de outubro para discutir a situação do Ministério Público.
O caso Cerimedo
Ex-assessor dos presidentes da Bolívia, Rodrigo Paz, e da Argentina, Javier Milei, Fernando Cerimedo é ligado a grupos de direita na América Latina apoiados por Donald Trump e próximo da família Bolsonaro. Ele ficou conhecido no Brasil em 2022, quando participou de campanha para desacreditar o sistema eleitoral brasileiro. Foi preso na Bolívia em agosto deste ano, acusado de tentativa de feminicídio contra a ex-companheira Nadia Beller, sendo também investigado por tráfico de drogas e enriquecimento ilícito. A defesa nega as acusações e alega que o cliente é vítima de armação política. Em fevereiro de 2026, o operador digital recebeu o prêmio de “consultor político hispânico do ano”, da organização Latino Wall Street, em cerimônia na residência de Trump em Mar-a-Lago, na Flórida, entregue pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
Especialistas ouvidos pela Agência Brasil avaliam que a ação contra autoridades bolivianas, com apoio do governo dos EUA, tem motivação política. “De modo geral, o combate às drogas por parte dos EUA na América Latina é e sempre foi político. Você ter a retirada de visto de um procurador que, coincidentemente, estava justamente analisando toda a rede da extrema-direita na região nos indica muito sobre a dimensão política desse tipo de ação dos EUA”, disse a professora Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Já o professor Salvador Schavelzon, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ponderou que não tem elementos para avaliar a legalidade da operação boliviana ou dos supostos indícios contra Mariaca, mas lembrou que o narcotráfico no país estaria infiltrado em diversas instituições. “O Poder, ao mesmo tempo, está conectado com o narcotráfico e joga na tentativa de se mostrar na luta contra o mesmo. Isso é uma constante desde a década de 1970 em áreas como o Poder Judiciário, alfândega, poder político e poder policial”, comentou.
Análise WeekNews: A prisão do chefe do Ministério Público boliviano ocorre dois dias após os EUA revogarem seu visto e coincide com a investigação que ele conduzia sobre uma rede ligada à direita regional. O episódio expõe a disputa entre o governo de Rodrigo Paz e as instituições nomeadas na gestão anterior, além de colocar o caso Cerimedo no centro de um imbróglio diplomático que envolve Washington, aliados latino-americanos e a oposição boliviana.
Fonte: Agência Brasil.
