
O programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, exibe nesta segunda-feira (5), às 23h, o episódio “Elas em campo: futebol, paixão e resiliência”, dedicado ao futebol feminino. A atração reúne depoimentos de especialistas, atletas e ex-atletas, gestoras, jogadoras de várzea, empreendedoras e meninas que vivem o esporte, para discutir o cenário atual da modalidade, os obstáculos já superados e as expectativas das próximas gerações.
A exibição ocorre a menos de um ano de um marco para o esporte: em junho de 2027, oito cidades brasileiras receberão jogos da primeira Copa do Mundo Feminina realizada na América do Sul, com a participação de 32 seleções. O evento é apresentado pelo programa como um reforço à importância do debate sobre o futebol feminino, ainda que existam desafios a superar.
Entre as entrevistadas está Márcia Honório, precursora na seleção brasileira e integrante da primeira equipe a representar o Brasil em uma Copa do Mundo. Ela relembra a emoção da convocação e da execução do Hino Nacional fora do país. “Quando você pega um telegrama daquele e se vê convocada, e quando está fora do seu país e ouve o Hino Nacional, é emocionante até hoje. A gente gostava e tinha garra, uma vontade de querer ganhar para chegar ao país e falar assim: ‘ó, agora vocês precisam ajudar o futebol feminino'”, afirma.
A ex-jogadora Formiga, recordista absoluta em tempo de atuação e em número de vezes representando o Brasil em copas do mundo, fala sobre a importância do pertencimento dentro da categoria. “Eu passei de Miraíldes, a Mira, da família e dos amigos, para Formiga. E só aí vim entender que não só a Miraíldes jogava futebol, existiam outras mulheres que também passaram o mesmo ou pior, que eu não era a única mulher estranha no mundo. Até então eu me achava um ser humano estranho, por ser a única menina ali que jogava realmente futebol no meio dos meninos”, diz.
A jornalista Milly Lacombe destaca a dimensão coletiva da luta. “Eu acho que a principal mudança é a ideia de que juntas, conseguimos coisas, sozinha ninguém consegue nada. Então, a ideia de que a luta pela emancipação feminina não se separa da luta pelo futebol feminino. Eu diria que essa consciência de que a gente é classe, é um grupo, de que vamos juntas. Eu acho isso muito bonito no futebol feminino, que tem uma história de amor que o masculino não tem”, afirma.
O programa resgata também o contexto histórico da modalidade. Se a geração das primeiras jogadoras a representar o país na seleção não tinha salários e recebia apenas uma ajuda de custo, inclusive nos clubes, hoje existem várias competições nacionais e internacionais, inclusive de categorias de base, com um cenário consolidado de jogos. Se antes era preciso conciliar a paixão pelos campos com outros trabalhos, atualmente há uma cadeia de mulheres atuando profissionalmente em cada etapa da modalidade, dentro e fora das quatro linhas.
Ainda assim, o episódio aponta a persistência de machismo e preconceito. Competições de várzea femininas ou espaços de formação e treinamento exclusivos para meninas são raros e surgem de iniciativas pontuais. O programa lembra que, entre os anos 1940 e meados de 1980, uma mulher era proibida por lei de praticar futebol no Brasil, sob a justificativa de que teria a saúde física prejudicada.
A treinadora de times da várzea Lu Leal resume o que espera para as novas gerações. “Meu maior sonho é ver as atletas que estão batalhando alcançar o objetivo chegar, ganhar e ter oportunidades. É o que elas merecem”, diz.
A exibição do episódio ocorre na semana em que é coroada mais uma equipe como vencedora do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, com grandes torcidas enchendo estádios e apoiando suas atletas. No próximo mês, o tema será retomado em outro programa, que tratará das condições e do cenário do futebol feminino como profissão e possibilidade de carreira para jovens mulheres.
Análise WeekNews: A escolha de dedicar um episódio ao futebol feminino a menos de um ano da Copa do Mundo de 2027 e de retomar o assunto em um segundo programa, no mês seguinte, indica que a emissora trata a modalidade como tema com desdobramentos ao longo do calendário, e não apenas como pauta pontual. O recorte do programa, que combina pioneiras como Márcia Honório e Formiga, a análise da jornalista Milly Lacombe e a realidade de jogadoras de várzea, sugere uma abordagem que articula memória, profissionalização e desafios ainda em aberto, elementos que o próprio material apresenta como parte do cenário atual da modalidade.
Fonte: Agência Brasil.
