
O livro “Escreviventes”, fruto de uma conversa entre as escritoras Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz, foi lançado neste mês durante a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). A obra, publicada pela Pallas Editora, inaugura a coleção Memórias Brasileiras e antecipa o documentário homônimo dirigido por Estevão Ribeiro, com estreia prevista para festivais em 2027. Ambas as autoras participaram de eventos lotados na Flip, onde o lançamento ocorreu em um momento simbólico: em 2026, Conceição celebra 80 anos de vida e Eliana comemora 60 anos.
O diálogo que deu origem ao livro foi gravado ao longo de dois dias na Kaza 123, um quilombo urbano localizado em Vila Isabel, no Rio de Janeiro. Durante a conversa, as autoras percorreram temas como literatura, memória, racismo, maternidade, envelhecimento e amizade, demonstrando como as experiências vividas atravessam a escrita literária. “Nós estamos exercendo o direito à memória”, destacou Conceição Evaristo em evento na Casa Estante Virtual, durante a Flip.
Ao comentar seu conceito de escrevivência, que percorre sua obra, Conceição Evaristo reforçou que ele diz respeito não apenas à memória e relatos autobiográficos, mas envolve também criação e ficcionalização. “Só escreve ficção quem conhece a realidade”, lembrou a escritora, ao citar o autor angolano Pepetela. Para Conceição, é o conhecimento da realidade e a experiência do mundo que dão a possibilidade de elaborar ficção. “E, muitas vezes, [permite] ficcionalizar uma memória que a gente não tem. É uma memória criada, aí eu volto ao texto de Ana Maria Gonçalves: ‘Um Defeito de Cor'”, disse a autora.
“Um Defeito de Cor” é um romance que narra a história de uma mulher africana em busca do filho perdido no Brasil. A protagonista Kehinde é inspirada em mulheres negras reais, como a ativista Luiza Mahin, trazida à força da África. Segundo Conceição, o livro e o documentário vão compor a história da literatura brasileira, registrando o percurso de duas escritoras negras. “A história da literatura brasileira é devedora das mulheres escritoras, e é principalmente devedora dos escritores negros, homens e mulheres”, afirmou.
Eliana Alves Cruz ressaltou a importância de registros como esse, citando a carência de material sobre autores como Lélia Gonzalez. “A gente sabe da importância [dos autores], a gente celebra, tem livro publicado, mas não os registros [sobre as pessoas]. Toda e qualquer oportunidade que a gente tenha para registrar as pessoas, a gente precisa usar. E essa foi uma oportunidade linda, um pouco feita na garra”, disse a escritora.
No entanto, Eliana lamentou a dificuldade para que projetos relacionados à história e à memória negra sejam adaptados ao formato audiovisual. “E aqui vai um pouco um protesto, porque eu acho que não é surpresa para ninguém. Essa democratização da literatura é algo muito recente no Brasil. E muito se deve à tecnologia, à chance de ter livros, e-book. Mas, no audiovisual, a gente tem um cenário bem difícil”, declarou.
A obra “Escreviventes” chega ao mercado em um contexto de crescente valorização da literatura de autoras negras no Brasil, mas ainda enfrenta desafios de adaptação para outras mídias. O documentário homônimo, que está sendo produzido, busca ampliar o alcance dessas narrativas, mas a falta de investimento e de espaço no audiovisual continua sendo um obstáculo, conforme apontou Eliana.
Com o lançamento, Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz reafirmam o papel da literatura como ferramenta de memória e resistência, ao mesmo tempo em que denunciam as lacunas históricas no registro da produção intelectual negra no país. O livro e o documentário prometem contribuir para preencher essas lacunas, registrando o percurso de duas das mais importantes vozes da literatura brasileira contemporânea.
Fonte: Agência Brasil.
