
Pesquisadores e estudantes de universidades brasileiras e francesas concluíram uma imersão de 12 dias no Pará para conhecer experiências de sociobioeconomia e aprofundar o debate sobre modelos de desenvolvimento sustentável na Amazônia. A atividade marcou o início da Escola Imersiva Internacional em Sociobioeconomia Amazônica, criada a partir da cooperação científica entre Brasil e França e viabilizada pelo programa de investimentos em bioeconomia na Amazônia, o Amabio, fruto de acordo bilateral firmado durante a visita do presidente francês Emmanuel Macron ao Brasil, em 2024.
O programa educativo é voltado a estudantes de mestrado e doutorado da Université Paris-Est Créteil (UPEC), da Université de Guyane (UG), da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). Segundo o ministro conselheiro da Embaixada da França no Brasil, Brice Fodda, a parceria estratégica entre os dois países tem a biodiversidade, a luta contra as mudanças do clima e o desenvolvimento sustentável como prioridades primárias.
A especialista técnica internacional em cooperação universitária e científica na Amazônia, Nadège Mezie, da agência Expertise France, afirma que o objetivo é permitir aos estudantes compreender a sociobioeconomia como modelo de desenvolvimento sustentável e conhecer iniciativas alinhadas a essa proposta. Ela cita ainda a importância de oferecer aos alunos uma contextualização maior, mostrando a presença dos povos indígenas e das populações tradicionais e a complexidade do mosaico de unidades de conservação.
Ao longo da programação, o grupo de 16 estudantes participou de palestras, painéis e rodas de conversa em sala de aula, além de visitas às cadeias produtivas do açaí, do cacau e da borracha, em Belém. O roteiro incluiu ainda visitas a comunidades extrativistas dos rios Arapiuns, Maguari e Jamaraquá, na Floresta Nacional do Tapajós, e ao programa de turismo comunitário do povo Munduruku, na Aldeia de Ipaupixuna.
Para o professor associado da UPEC Felipe Koch, a recepção nas comunidades foi um destaque da experiência, considerando que a sociobioeconomia que faz sentido para a Amazônia é parte dos povos e comunidades que mantêm a floresta em pé. Segundo ele, a escola tratou essas comunidades como parceiras de formação e detentoras de saberes que a universidade precisa aprender a reconhecer.
A estudante de doutorado da Guiana Francesa Vitória Tailamé, que pesquisa sustentabilidade na construção civil, disse que desconhecia o conceito de sociobioeconomia. Para ela, a palavra traduz melhor os três pilares de um futuro desejável: uma economia que respeita as pessoas, a natureza e seu tempo.
Os resultados da vivência incluem produtos voltados ao aperfeiçoamento de inovações e iniciativas de sociobioeconomia. Koch explica que os estudantes da universidade de Paris receberão créditos acadêmicos conforme a pertinência das soluções construídas coletivamente com as comunidades. Os grupos mistos, que reúnem estudantes das quatro universidades — entre eles sete mestrandos e dois doutorandos da UPEC —, trabalham agora à distância em projetos de resposta a problemas formulados em campo e vão apresentá-los aos parceiros em janeiro de 2027. Já os estudantes da Guiana Francesa produzirão artigos e um diário de bordo.
Os alunos brasileiros da UFPA e da UFOPA já atuam em projetos de extensão ou têm o tema como objeto de suas teses de mestrado ou doutorado. A primeira atividade da escola foi avaliada em um balanço ao final da programação, no qual estudantes e especialistas apresentaram suas impressões. Tailamé destacou o impacto transformador de vivenciar o respeito à floresta em aulas a céu aberto, fora dos muros, e afirmou que o grupo ainda levará tempo para digerir a experiência e compartilhar o aprendizado.
Diante dos bons resultados relatados, Nadège Mezie afirma que já se pensa em uma segunda edição para o próximo ano, com expectativa de realização na Guiana Francesa. A continuidade das atividades ocorrerá de forma alternada nos dois países, com foco especial na Amazônia. O ministro Brice Fodda conclui que a diplomacia franco-brasileira é forte o suficiente para manter edições em ambos os países de forma equilibrada e que a intenção é preservar essa dinâmica positiva nos próximos anos.
Análise WeekNews: A primeira edição da escola imersiva consolida um eixo de cooperação científica entre Brasil e França que já havia sido sinalizado no acordo bilateral de 2024. A escolha de realizar a atividade inaugural no Pará e a previsão de uma segunda edição na Guiana Francesa indicam que o programa deve manter a Amazônia como território central, alternando sedes entre os dois países. A participação de estudantes de quatro universidades e a exigência de créditos acadêmicos vinculados a soluções construídas com as comunidades sugerem que a iniciativa busca produzir resultados além da experiência de campo, com desdobramentos previstos para janeiro de 2027.
Fonte: Agência Brasil.
