
O ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, afirmou que uma onda de desinformação coordenada pela chamada “internacional reacionária” foi o principal gatilho para a tentativa em massa de imigração irregular no enclave de Ceuta, na costa africana. Em entrevista ao canal público RTVE nesta segunda-feira (3), o chanceler disse que redes sociais amplificaram mentiras sobre a suposta facilidade de entrar no país e sobre a integridade do Espaço Schengen, área de livre circulação da União Europeia.
“Houve também uma resposta sincronizada da internacional reacionária, que amplificou muito rapidamente o que estava acontecendo e espalhou mentiras e notícias falsas sobre a integridade do Espaço Schengen e sobre as ações da Espanha”, declarou Albares. Segundo ele, a movimentação nas plataformas digitais foi “muito inusual” e distorceu uma decisão recente do Supremo Tribunal da Espanha que proibiu a deportação sumária de imigrantes que chegam a nado ao território espanhol.
O ministro explicou que a decisão judicial foi usada de forma distorcida para fazer crer que qualquer pessoa que conseguisse atravessar a fronteira seria automaticamente autorizada a permanecer no país, sem risco de repatriação. “Precisamos monitorar as redes sociais e combater a desinformação, que tem sido o elemento-chave para desencadear esse movimento sem precedentes”, afirmou. Ele acrescentou que a reação do movimento reacionário internacional “precisa ser combatida de forma clara”.
Albares também cobrou solidariedade dos demais países europeus, lembrando que Ceuta e Melilla são as únicas cidades da União Europeia com fronteira terrestre com a África. Durante a entrevista, o chanceler fez críticas à Itália, que tem defendido a expulsão da Espanha do Espaço Schengen. A crise migratória em Ceuta tem sido usada por setores políticos europeus para reforçar demandas por políticas anti-imigração mais rígidas.
O episódio também gerou reações internacionais. O governo dos Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, responsabilizou as políticas espanholas por “facilitar a imigração ilegal em massa para a Europa”. Já o embaixador de Israel na ONU, Danny Danon, classificou Ceuta e Melilla como “enclaves coloniais na África”. A encarregada de Negócios de Israel na Espanha, Dana Erlich, foi obrigada a se manifestar publicamente para dizer que o comentário de Danon “não representa a posição do Estado de Israel”.
A crise em Ceuta ocorre em meio a um acúmulo de atritos diplomáticos entre a Espanha, os Estados Unidos e Israel. O governo espanhol tem se oposto à guerra liderada pelos EUA e por Israel contra o Irã e mantém postura crítica em relação à ação israelense nos territórios palestinos. Essas divergências políticas ajudam a explicar o tom das declarações vindas de Washington e Tel Aviv.
A situação em Ceuta tem gerado comoção e preocupação. Relatos locais indicam que milhares de pessoas tentaram entrar no enclave nos últimos dias, muitas delas a nado, aproveitando a maré baixa. As autoridades espanholas reforçaram a segurança na fronteira e instalaram barreiras flutuantes para conter novas tentativas de entrada. O número de mortos durante a chegada de migrantes a Ceuta subiu para 72, segundo informações divulgadas anteriormente.
A decisão do Supremo Tribunal da Espanha que motivou a onda de desinformação alterou as regras para o tratamento de imigrantes irregulares que chegam a nado, proibindo a deportação sumária. Antes, esses imigrantes podiam ser devolvidos imediatamente à fronteira, sem processo individual. A nova orientação exige que cada caso seja analisado, o que foi interpretado de forma distorcida nas redes sociais como uma porta aberta para a imigração sem consequências.
Albares enfatizou que a desinformação foi o elemento central para o movimento sem precedentes e defendeu uma atuação mais firme das autoridades para monitorar e combater as notícias falsas. Ele também pediu que a Europa demonstre solidariedade com a Espanha, que enfrenta sozinha a pressão migratória em suas fronteiras com o Marrocos.
A crise em Ceuta reacendeu o debate sobre a política migratória europeia e expôs as tensões entre os países do bloco. Enquanto a Itália defende medidas mais duras, a Espanha busca apoio para lidar com a situação humanitária e com a desinformação que, segundo o chanceler, foi orquestrada por grupos reacionários internacionais. Ainda não há informações oficiais sobre o número exato de pessoas que conseguiram entrar em Ceuta ou sobre as medidas que serão adotadas para processar os pedidos de asilo.
Fonte: Agência Brasil.
