
Cinco anos após a morte da comerciária Kathlen Romeu, de 24 anos, e de seu bebê, os policiais militares Rodrigo Correia de Frias e Marcos Felipe da Silva Salviano serão julgados pelo Tribunal do Júri em 26 de novembro, às 10h. A jovem, grávida de quatro meses, foi baleada quando visitava a avó, Sayonara de Oliveira, no Lins de Vasconcelos, Zona Norte do Rio de Janeiro. Ela e o bebê não sobreviveram.
Segundo a denúncia do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, os policiais dispararam em direção ao local onde Kathlen e a avó caminhavam. Os agentes alegaram mirar em bandidos, versão que nunca foi comprovada. A defesa dos militares foi procurada, mas não respondeu até o fechamento da reportagem. Os dois respondem ao processo em liberdade e, de acordo com a corporação, estão afastados de suas funções.
Os agentes chegaram a ser absolvidos da acusação de fraude processual na Justiça Militar, mas a promotoria recorreu e eles foram condenados pela 6ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
A mãe de Kathlen, Jacklline de Oliveira, de 45 anos, e o pai, o professor de educação física Luciano Gonçalves, de 49, receberam a reportagem em casa para falar sobre o julgamento. A jovem, que começou a customizar e vender roupas aos 15 anos, havia financiado o primeiro apartamento na planta e esperava o primeiro filho. A família nunca conheceu o neto, e Kathlen não chegou a ver sua primeira casa.
“A gente estava no melhor momento das nossas vidas, e eu fui do céu ao inferno com 40 anos”, conta Jacklline. “O Estado mata a gente diariamente há cinco anos e três meses e alguns dias. Não tem um dia que eu não me sinta ganhando um tiro de fuzil.”
A mãe afirma que entrará no tribunal com a esperança de que a sociedade civil que se solidarizou com a família em 8 de junho de 2021 continue ao lado deles no julgamento. “Se esses policiais não forem punidos, não forem condenados, a sociedade civil também estará matando Kathlen Romeu e o seu bebê”, declarou. Jacklline faz terapia para processar a dor, e Luciano cursa o terceiro ano de psicologia.
A família relata que chegou a acionar a corregedoria do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro contra o promotor responsável pela investigação na época, por ele ter sugerido que poderia arquivar o processo e recomendado que a família buscasse “justiça divina”, em 2022. A Corregedoria-Geral do MPRJ informou que abriu um procedimento administrativo disciplinar para investigar a denúncia, mas o processo acabou arquivado por falta de provas contra o promotor. No mesmo ano, o promotor denunciou os policiais à Justiça.
“A nossa luta é pela memória, reparação e justiça, mas em prol de uma juventude negra, pobre, preta, periférica viva, e do máximo rigor da lei”, afirmou Jacklline. “A minha filha eu já perdi. A luta que fazemos é pelos filhos de outras, para que as vidas deles não sejam ceifadas pelo Estado. Não queremos outros pais com a dor que temos hoje.”
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que a polícia fluminense matou 798 pessoas em 2025, quase duas em cada dez mortes violentas intencionais no estado naquele ano (3.890). Em apenas uma ação policial, a Operação Contenção, foram 117 mortes, 15% do total do ano. O Rio de Janeiro foi o sexto estado com maior índice de letalidade em decorrência de ação policial no país, atrás de Amapá, Bahia, Sergipe, Pará e Goiás. No Brasil, quem mais morre por intervenção policial são homens jovens, de 15 a 24 anos, de cor negra.
O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro não comentou as falhas no controle da letalidade policial nem a razão do baixo número de denúncias contra agentes. O governo do Rio informou que adota um conjunto permanente de medidas voltadas à redução da violência letal e ao aprimoramento da atuação policial, citando cursos, treinamentos e atualizações. As medidas, no entanto, foram consideradas insuficientes pelo Ministério Público Federal, que quer um plano com metas e prazos.
Fonte: Agência Brasil.
