Livro revela como montadoras financiaram e sustentaram a repressão na ditadura

Livro revela como montadoras financiaram e sustentaram a repressão na ditadura
Fonte da imagem: Agência Brasil


Um livro lançado esta semana em São Paulo detalha como cinco montadoras instaladas no Brasil colaboraram com o aparato repressivo durante a ditadura militar. Escrita pelos jornalistas Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, a obra Repressão Sociedade Anônima é resultado de três anos de pesquisas documentais e entrevistas e concentra-se em Mercedes-Benz, Volkswagen, General Motors, Scania e Ford, com foco na região do Grande ABC Paulista e nas grandes metalúrgicas.

Segundo Reina, as empresas financiavam a máquina de repressão. A descoberta partiu da análise dos livros de registro de entrada do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), no Largo General Osório, na capital paulista, onde os pesquisadores encontraram uma lista de ramais telefônicos que incluía o de um estande de tiro. A partir dali, identificaram que algumas empresas custeavam equipamentos para esse estande, como munições e protetores auriculares — estes últimos financiados pela General Motors.

A cooperação, explicam os autores, não se limitava ao apoio financeiro ou à compra de materiais. Ela também ocorria pela incorporação de militares dentro das fábricas e pela atuação de arapongas, pessoas que se misturavam aos trabalhadores para delatar quem fazia reivindicações, conforme relatou Ferrasoli. Havia ainda um conjunto de ações para firmar essa cumplicidade e afastar os trabalhadores: quem participasse de uma greve, mesmo sem vínculo partidário ou de oposição à ditadura, entrava em uma lista que circulava entre várias empresas e praticamente inviabilizava nova contratação.

Os pesquisadores também destacaram o descaso com as condições de trabalho no período. Reina lembra que a obra dedica um capítulo inteiro aos acidentes de trabalho e cita que, em 1975, houve um dia com mais de cinco mil acidentes registrados no Brasil, em um contexto de registro precário, quando a delegacia do trabalho e instâncias da Justiça do Trabalho estavam sob controle dos militares.

A situação das mulheres trabalhadoras é outro ponto abordado. Ferrasoli entrevistou mulheres que começaram a trabalhar com 12 ou 13 anos e relataram condições degradantes, como precisar de uma chave para usar o banheiro, sob controle de tempo, e retirar cota de papel higiênico na mesa do chefe. Em alguns casos, quando o rolo acabava, elas tinham que levar o item de casa.

As pesquisas revelaram ainda a existência de uma filial do Dops em São Bernardo do Campo, principal polo metalúrgico do país, situada a três ou quatro quadras da sede do sindicato. Conhecida como Dopinho do ABC, era formada por empresas da região e mantinha um sistema de vigilância e controle de trabalhadores e ativistas sindicais. No local, segundo Reina, pessoas eram presas e torturadas, incluindo integrantes de movimentos eclesiais de base, de movimentos por melhorias nos bairros e um menor de idade.

O livro também retoma o caso da Volkswagen, que em 2015 passou a ser investigada pelo Ministério Público de São Paulo após depoimentos recolhidos pela Comissão Nacional da Verdade. Em 2021, o MP divulgou relatório apontando que a empresa contribuiu intensamente com o aparato repressivo, com conhecimento de sua direção. Em 2017, a própria montadora contratou o historiador alemão Christopher Kopper, da Universidade de Bielefeld, cujo relatório afirma que a VW do Brasil foi irrestritamente leal ao governo militar e compartilhou seus objetivos econômicos e de política interna. Em nota enviada aos autores, a Volkswagen informou que assinou um termo de ajustamento de conduta com o Ministério Público e que foi a primeira empresa estrangeira a reavaliar sua história durante o regime militar no Brasil. A Scania declarou que repudia qualquer tipo de manifestação contrária aos direitos humanos. As demais montadoras citadas não se manifestaram até a publicação.

Para os autores, ainda há muito a ser pesquisado sobre a cooperação empresarial com a ditadura, especialmente a participação de empresas públicas. Ferrasoli avalia que a ditadura sobreviveria sem o apoio empresarial, mas de forma muito mais escalonada com a participação dessas companhias. Reina defende que a história do período tem milhares de episódios a serem contados e que muitos arquivos militares foram destruídos, sendo necessário um novo olhar sobre a documentação.

Análise WeekNews: O levantamento documental que sustenta o livro amplia o conhecimento sobre o envolvimento de empresas privadas com o regime militar, ao reunir registros do próprio aparato de repressão, como a lista de ramais do Dops, e relatórios posteriores, como o do Ministério Público paulista e o contratado pela Volkswagen. Ao concentrar a investigação em cinco montadoras do ABC, a obra indica que a cooperação empresarial não se limitou a uma única companhia e ocorreu por mecanismos variados, do financiamento de equipamentos à vigilância interna. A declaração dos autores sobre a necessidade de pesquisar empresas públicas sinaliza que o tema permanece aberto a novos estudos.

Fonte: Agência Brasil.

Publicidade

Imperdivel!!!

Campeonato Brasileiro
Tabela do Campeonato Inglês (Premier League)
Tabela do Campeonato Espanhol (La Liga)
Tabela do Campeonato Alemão (Bundesliga)
Tabela do Campeonato Francês (Ligue 1)
Tabela do Campeonato Italiano (Serie A)