
Durante as férias, o menino de 8 anos parou de brincar para conversar com o pai sobre uma situação que o incomodou: ele e um amigo riram ao ver um pouco demais do corpo de uma amiguinha. O pai, o goianiense Cleomar Barros, de 43 anos, morador de Brasília, aproveitou o momento para uma conversa séria. Ele explicou ao filho que é preciso respeitar as meninas, assim como ele trata a irmã, de 11 anos, e que não se deve rir desse tipo de situação. O menino concordou e abraçou o pai.
Cleomar, analista de sistemas, afirma que faz questão de mostrar ao filho, desde cedo, que homens e mulheres devem ser parceiros e amigos. Ele procura demonstrar, no dia a dia, gestos de cuidado e respeito com a esposa e com a filha. Para profissionais que estudam a chamada “masculinidade saudável”, essa educação pelo exemplo é uma das chaves para que os pais atuem contra a misoginia dentro de casa. Segundo eles, cada passo contra o machismo no ambiente familiar pode representar mais do que um presente de Dia dos Pais.
O psicanalista Thiago Queiroz, que atua no Rio de Janeiro e mantém a página “Paizinho, vírgula!”, com mais de 324 mil seguidores, além de ser autor do livro “Amor de pai”, ressalta que as crianças aprendem principalmente pelo modelo que o pai apresenta. Para ele, o respeito às mulheres precisa ser naturalizado em todos os espaços que os pais frequentam com os filhos, e esse processo é interpretado pela criança à medida que ela cresce.
Cleomar também destaca a importância de observar se os meninos fazem comentários inadequados sobre as meninas. Ele sugere o uso de livros infantis que abordem o tema de forma lúdica, naturalizando a força das mulheres e mostrando que elas não precisam de um príncipe encantado para salvá-las. Na pré-adolescência, segundo ele, já é possível conversar abertamente sobre violência contra as mulheres.
A psicóloga Bárbara Lobato, que atende famílias em Brasília, concorda que a intervenção positiva é fundamental. Ela observa um aumento no número de pais atentos ao combate à misoginia, mas ressalta que é uma construção cotidiana. Para Bárbara, é importante que os homens saibam identificar e falar sobre suas próprias dores na vida adulta, para que possam transmitir mensagens melhores aos filhos, mantendo-se abertos ao diálogo e à conexão. Ela alerta que garotos em idade de adolescência também têm suas dores e podem relatar negligência afetiva ou social por não se sentirem compreendidos. Por isso, é necessário acolher esses sentimentos com o apoio dos responsáveis, e esse caminho deve ser compartilhado também no ambiente escolar.
A professora e orientadora educacional Ana Paula Lilly, de 56 anos, que trabalha em uma escola em Bauru (SP), observa que os discursos de misoginia chegam aos adolescentes também por grupos de mensagens no celular. Ela defende o trabalho de prevenção por meio da educação digital e midiática, ensinando os jovens a analisar criticamente o que consomem. Ana Paula explica que a escola deve auxiliar os pais sobre o que as crianças e adolescentes vivenciam fora de casa, e que família e escola devem agir em parceria, com mensagens coerentes sobre respeito, igualdade e responsabilidade. A unidade de ensino também deve chamar os pais ou responsáveis quando houver incidência de demonstrações de violência.
Para ampliar as discussões sobre paternidade, um grupo de pais em São Paulo criou, na última semana, o canal de vídeos Papicast, como um espaço de discussão e rede de apoio paterna. Tiago Koch, de 43 anos, cofundador do projeto “De Mano pra Mano”, que atua em escolas diretamente com meninos, defende que os pais apresentem limites aos filhos em questões relacionadas ao corpo. Ele avalia que os garotos estão “pedindo ajuda em silêncio” sobre como se relacionar com as meninas, e que o machismo estrutural faz parte do contexto de vida deles, sendo fundamental o apoio dos pais para que compreendam melhor o mundo. Koch alerta para o perigo do ensinamento reforçado por grupos masculinistas e pelas redes sociais, e ressalta que os meninos carecem de espaços de escuta e de construção de caminhos propositivos que fujam dos estereótipos de homens atravessados pela violência, força, performance da masculinidade, provisão financeira e hipersexualização.
Tiago Koch considera que os pais estão com dúvidas sobre como lidar com as características de um mundo diferente, pois não contam com referências dos antepassados e são atropelados pelo avanço da tecnologia, que traz novos desafios a cada dia. Também no Papicast, o ator e conferencista Tadeu França, pai de dois meninos, que trata de temas como antirracismo e antibullying na infância, exemplifica que os filhos reconhecem quando o homem e a mulher atuam pelo cuidado da casa, e que em algum momento da criação ele entendeu e associou que as coisas da casa são da mãe. O terceiro participante do projeto, Dennis Takada, relata que os pais queriam ter mais tempo para ficar com os filhos, e que as políticas públicas devem levar em conta as necessidades da paternidade para melhorar a relação da família.
Os integrantes do Papicast defendem mais ações no campo dos direitos dos pais, como a licença paternidade, e materiais educativos e de orientação às famílias. Tiago Koch considera que as meninas têm reconhecido mais imediatamente demonstrações de machismo e cobrado dos rapazes uma postura diferente. Ele afirma que elas continuam precisando de políticas públicas de proteção e de escuta, e que quando falam que os homens estão sendo machistas, isso pode virar ressentimento, ódio e violência, e os rapazes não entendem.
O terapeuta Fábio Manzoli, de Jundiaí (SP), pai de gêmeos e criador do canal “Masculinidade saudável”, resolveu tratar dos traumas de outros homens a partir das dores que aprendeu em casa. Ele tinha na memória a ordem que ouviu quando criança: “homem deve engolir o choro”. Em contrapartida, ouviu palavras pejorativas para se referir a mulheres. Fábio começou a perceber padrões machistas em si mesmo e mudou sua história ao entender que o caminho de sua vida poderia ser diferente. Ele afirma que percebeu que o “engole o choro” era a raiz da maioria dos seus problemas. O nascimento dos filhos abriu ainda mais seus olhos, e ele ressalta que os pais podem chorar para os filhos, mostrando que são seres humanos e que eles também estão autorizados a chorar.
Romper o silêncio permanente dos homens pode ser mais um passo no combate à misoginia de todos os dias. Cleomar Barros, pai do Samuca, defende romper também com a história das mensagens machistas que eram tidas como naturais. Ele afirma que cresceu, assim como seus amigos, com ideias muito erradas, e que chegou a hora de mudar isso. O menino, que corre, brinca e é fã da irmã mais velha, segue vivendo a infância, agora com a consciência de que o respeito às meninas é fundamental.
Fonte: Agência Brasil.
