
Os planos de governo dos candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apresentam visões distintas para a política externa brasileira. Enquanto o documento de Lula dedica quase seis páginas ao tema e prioriza o fortalecimento das relações com o Sul Global, o de Flávio Bolsonaro, com cerca de três páginas, defende aproximação maior com Estados Unidos, Israel e Argentina.
O plano de Lula afirma que o mundo vive “conflitos sem precedentes” desde a 2ª Guerra Mundial, com ataques ao direito internacional e tentativa de “imposição de uma ordem mundial predatória”. O texto promete “firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica” e rejeita o que chama de “servilismo” em alinhamentos automáticos.
A política externa do candidato petista é descrita como “universalista”, com relações com “todas as partes do mundo” para diversificar parcerias comerciais. O documento prevê novos acordos e abertura de mercados para enfrentar “agressões comerciais” — desde o ano passado, o Brasil tem sido alvo da política de tarifas do governo de Donald Trump, que também afeta aliados históricos dos EUA como Canadá e Índia. O plano destaca ainda o aprofundamento da aproximação com o Brics, o G20 e a África.
Já o plano de Flávio Bolsonaro critica a gestão atual: “Nos últimos anos, a política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia”, diz o texto, que cita as posições do governo Lula em relação ao Irã, à Venezuela e a Israel. O candidato do PL tem defendido as ações militares do governo Trump, como a guerra contra o Irã e a invasão da Venezuela, além de criticar a política do Brics de estimular o comércio sem a necessidade do dólar.
O documento do PL afirma que a soberania se exerce “na prática” e não com “bravatas”. “Não trataremos como adversários os nossos parceiros mais importantes e tradicionais. Nos últimos anos, as relações com países como Argentina, EUA e Israel foram levadas ao limite do rompimento. Vamos reverter esse quadro com profissionalismo e foco no interesse do Brasil”, diz o plano.
Em defesa nacional, o plano de Lula promete fortalecer a indústria do setor, citando medidas do atual mandato via Novo PAC: R$ 20,4 bilhões executados desde 2023, entrega de 7 caças Gripen F-39 — com a primeira aeronave produzida em solo brasileiro neste ano —, aquisição de 3 cargueiros KC-390 fabricados no país, construção de 4 fragatas, com a primeira já em operação, e produção de 226 viaturas blindadas. Flávio Bolsonaro também aborda a relação entre defesa e política internacional, prometendo incentivar tecnologias militares com foco em drones e inteligência artificial.
Sobre minerais críticos e terras raras, o plano de Lula prevê uma política específica para organizar cadeias produtivas, diferenciar usos tecnológicos e evitar a simples exportação de matérias-primas estratégicas. Flávio Bolsonaro afirma que vai atrair capital estrangeiro e tecnologia, estabelecendo “parcerias internacionais com todos os 55 países que queiram a cooperação do Brasil, sem preconceitos ou ranços ideológicos”. Em março deste ano, em evento com conservadores nos Estados Unidos, ele disse que o Brasil é a solução para “quebrar” a dependência americana da China em relação a minerais críticos.
O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com cerca de 21 milhões de toneladas, aproximadamente 23% do total, atrás apenas da China. Os EUA concentram cerca de 1,9 milhão de toneladas, em torno de 2% das reservas conhecidas. Esses minerais estão no centro da disputa comercial e tecnológica entre China e EUA por serem insumos fundamentais das indústrias de tecnologia, defesa e transição energética.
Análise WeekNews: A comparação entre os dois planos expõe uma diferença estrutural de orientação diplomática. O documento de Lula aposta na diversificação de parcerias e na articulação com o Sul Global, enquanto o de Flávio Bolsonaro prioriza a recomposição de laços com Washington, Tel Aviv e Buenos Aires. O peso dado ao tema — quase o dobro de páginas no plano petista — sugere que a política externa ocupa espaço central na campanha. A disputa em torno das terras raras, citada por ambos, indica que a questão dos minerais críticos deve permanecer como ponto de atrito entre as duas visões.
Fonte: Agência Brasil.



