Projeto em Roraima usa mercado de carbono para evitar desmate legal de floresta

Projeto em Roraima usa mercado de carbono para evitar desmate legal de floresta
Fonte da imagem: Agência Brasil


Um projeto de conservação em Caracaraí, Roraima, aposta no mercado de carbono para manter de pé uma área de 14 mil hectares que poderia ter sido desmatada legalmente para o plantio de soja. A iniciativa, da empresa paulista ZEG (Zero Emission Goal), combina monitoramento tecnológico, prevenção de incêndios e apoio a comunidades extrativistas.

A área pertence a um produtor rural de soja de Goiás que, após a conclusão do zoneamento ecológico-econômico de Roraima em 2022, passou a ter direito de desmatar metade da propriedade — já que o estado permite redução da reserva legal para 50% em áreas de bioma amazônico, conforme o Código Florestal (Lei 12.651/2012). O proprietário havia solicitado autorização para supressão da vegetação quando foi procurado pela ZEG.

“A gente ficou sabendo que ele estava com esse pedido de supressão da área. Então, a gente contatou o produtor e no começo ele ficou bastante com dúvidas se esse era o caminho a seguir, mas ele acreditou no nosso projeto e decidiu embarcar”, conta o diretor-presidente da ZEG, Carlos Jacob.

O modelo incluiu a cessão do direito real de superfície por 40 anos, período do contrato para comercialização dos estoques de carbono, e a remontagem da cadeia dominial da propriedade para garantir segurança jurídica. Segundo Jacob, a medida busca dar credibilidade após o colapso do mercado de conservação entre 2021 e 2023, marcado por números superestimados e áreas sobrepostas a terras públicas.

Para reduzir o principal risco da região, foram investidos R$ 20 milhões, incluindo uma torre de 60 metros com câmeras e inteligência artificial capaz de detectar focos de incêndio em até três minutos. A equipe local, de 20 pessoas, foi treinada como brigada de incêndio, e duas áreas de assentamento vizinhas também receberam capacitação.

A preservação da floresta também beneficia cerca de 36 famílias que vivem do extrativismo da castanha-do-Pará. Elas mantiveram a coleta na área e, com apoio da ZEG, criaram a Associação Agroextrativista do Município de Caracaraí (Agrocar), o que permitiu a venda coletiva da produção. “Este ano, eu achei que melhorou bastante, na comparação com os outros anos. Eu achei mais organizado porque, antes, a gente vendia direto para o atravessador. Trabalhando junto, a gente já pode pensar em fazer uma venda melhor”, diz a extrativista e secretária da Agrocar, Eliane de Sena.

O extrativista João Inácio Neto, que aprendeu o ofício com o pai, conta que temia perder o acesso à área com a chegada do agronegócio. “Quando venderam esse lugar, a gente imaginou também que não ia mais poder coletar”, afirma.

Os estoques de carbono ainda não foram comercializados, mas o projeto já recebeu classificação AA da agência BeZero, sendo o primeiro projeto de desmatamento evitado no mundo a obter essa nota, segundo Jacob. A certificação é feita pela Verra, com auditoria da empresa indiana Earthwood.

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A iniciativa em Roraima ilustra uma mudança na lógica da conservação: em vez de apenas impedir o desmate, o projeto busca tornar a floresta em pé financeiramente atraente para o proprietário. Ao unir segurança jurídica, tecnologia e benefícios diretos às comunidades locais, o modelo tende a reduzir os riscos que historicamente minaram a confiança no mercado de carbono. A nota AA obtida antes da primeira venda sugere que a credibilidade do projeto pode ser tão relevante quanto o próprio estoque de carbono para atrair investidores.

Fonte: Agência Brasil.

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