Rádio Nacional completa 90 anos e tem trajetória celebrada em programa especial

Rádio Nacional completa 90 anos e tem trajetória celebrada em programa especial
Fonte da imagem: Agência Brasil


A Rádio Nacional completa 90 anos em 2026 e sua história é tema do programa Caminhos da Reportagem desta segunda-feira (14). O legado da emissora, que hoje integra a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), está presente na cultura e na programação do rádio e da televisão brasileira.

A estreia da Rádio Nacional ocorreu em 12 de setembro de 1936, no Rio de Janeiro, e foi anunciada com alvoroço pelo Jornal A Noite, do mesmo grupo ao qual pertencia a emissora. Na época, o Brasil vivia o desenvolvimento industrial e a expansão das cidades, mas a maior parte da população ainda morava na zona rural e não sabia ler. O rádio foi o primeiro meio de comunicação de massa a falar para os brasileiros de forma mais abrangente, e a Nacional se tornou símbolo desse fenômeno.

Nascida privada, a emissora foi estatizada pelo presidente Getúlio Vargas na década de 1940, quando passou a receber mais investimentos em transmissores e programação. Segundo registros do Ibope, assumiu então o posto de campeã de audiência. Os ouvintes tinham acesso a notícias, música, radionovelas, radioteatro, quadros humorísticos e transmissões esportivas, entre outras abordagens inovadoras.

“A Rádio Nacional já traz um desenho profissional diferente”, explica a historiadora Lia Calabre, destacando que a emissora foi pioneira ao selar contratos exclusivos, formar orquestra e elenco de artistas. “O que a Nacional faz? Ela cria as suas vozes”, afirma.

O acervo da EBC guarda fichas de antigos funcionários que atraíam multidões de fãs para os programas de auditório, entre estrelas como Emilinha Borba, Marlene, Cauby Peixoto, Pixinguinha, Paulo Gracindo e Heron Domingues, apresentador do programa jornalístico Repórter Esso. Também estão preservados seis dos nove volumes originais dos roteiros de Em busca da Felicidade, primeira radionovela transmitida no Brasil, exibida pela Rádio Nacional entre 1941 e 1943. Por esse material, a EBC recebeu o certificado Memória do Mundo, concedido pela Unesco.

Os roteiros estão em processo de tombamento pelo Instituto do Patrimônio Artístico Nacional (Iphan), que deve ser concluído até o fim do ano, segundo a gerente de acervo e pesquisa da EBC, Maria Carnevale. O passo seguinte será salvaguardar fotos, documentos e programas gravados. “A gente tem a perspectiva de que boa parte do acervo da Rádio Nacional seja tombado”, afirma Carnevale.

Fã das cantoras da Rádio Nacional na adolescência, Mara Régia se tornou uma das apresentadoras mais longevas da emissora. Ela comemora 45 anos no ar com o programa Viva Maria, que aborda a valorização do universo feminino e os direitos das mulheres. Entre os maiores feitos do programa, Mara destaca as transmissões a partir da rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, que impulsionaram a criação das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher.

Ao longo de sua jornada, a Rádio Nacional se desdobrou em sete emissoras principais: Rádio Nacional do Rio de Janeiro (1936), Rádio Nacional de Brasília AM (1958) e FM (1976), Rádio Nacional da Amazônia (1977), Rádio Nacional do Alto Solimões (2006), Rádio Nacional São Luís e Rádio Nacional São Paulo, ambas criadas em 2021. Em 2007, com a implementação da EBC, passou a ser um veículo público, ampliando seu compromisso com a cultura popular e a cidadania.

Para o diretor-geral da EBC, Thiago Regotto, a história da Rádio Nacional contribui para que ela seja um dos pilares do campo radiofônico no fomento à radiodifusão pública. “Uma rádio que toque música brasileira, que faça um jornalismo mais amplo, independente, contraditório, para que você consiga estimular a formação crítica das pessoas”, afirma.

O professor do Núcleo de Rádio e TV da UFRJ, Marcelo Kischinhevsky, destaca o papel da emissora como uma das articuladoras da Rede Nacional de Comunicação Pública, que envolve mais de 140 emissoras públicas estaduais, universitárias ou ligadas a institutos federais. As parceiras compartilham conteúdo informativo, educativo e cultural sem foco comercial. “Esse movimento é muito bem-vindo para que a gente tenha informação de qualidade, verificada, com aval da ciência, para combater a desinformação que hoje é tão flagrante”, aponta Kischinhevsky.

Entre as novas gerações de ouvintes está Hernandez Lopes, de 14 anos, que mora em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e aprendeu a ouvir a Rádio Nacional com o pai, que herdou da mãe a preferência pela programação. Ele participa sempre do programa Revista Rio por telefone. “Eu peço as músicas que eu gosto e nunca decepciona”, diz. O estudante também descobriu a magia da escuta compartilhada. “Eu gosto desse estilo antigo, aquele que acaba com a solidão, porque não é só uma pessoa ouvindo uma música, são várias pessoas, e você ainda pode contribuir para a programação”.

Análise WeekNews: A trajetória de 90 anos da Rádio Nacional, marcada pela transição de emissora privada a veículo público e pela expansão para sete emissoras principais, indica a consolidação de um modelo de radiodifusão que combina programação popular e conteúdo educativo sem foco comercial. A preservação do acervo, com o certificado Memória do Mundo e o processo de tombamento em curso, reforça o reconhecimento institucional do material como patrimônio histórico e cultural. A menção à Rede Nacional de Comunicação Pública, com mais de 140 emissoras parceiras, sugere que a emissora mantém papel articulador na oferta de informação verificada, enquanto relatos de ouvintes de diferentes gerações apontam continuidade de vínculo com o público.

Fonte: Agência Brasil.

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