
As populações de vertebrados selvagens monitoradas em todo o mundo encolheram, em média, 73% entre 1970 e 2022, segundo o relatório Planeta Vivo divulgado nesta quinta-feira (8). O levantamento, produzido pela Sociedade Zoológica de Londres (ZSL) para o WWF Internacional, indica um recuo médio de 2,5% ao ano no período de 52 anos analisado.
Os dados integram o Índice Planeta Vivo (IPV), que mede a mudança média no tamanho de 35.803 populações de 5.790 espécies de vertebrados — mamíferos, aves, peixes, répteis e anfíbios. A medição se refere à abundância das populações, e não ao número absoluto de indivíduos, e acompanha tanto grupos com muitos quanto com poucos exemplares.
Entre os três indicadores que compõem o IPV, o Índice de Água Doce registrou o maior declínio: 85% em 52 anos, o equivalente a uma média de 3,6% ao ano. O relatório aponta que as espécies de rios e lagos enfrentam uma ampla gama de ameaças nas bacias hidrográficas. “Por exemplo, os peixes são frequentemente ameaçados por alterações em seu habitat, incluindo barragens e desvios, que podem bloquear rotas de migração essenciais”, destaca o documento.
O Índice Terrestre, que abrange habitats como florestas, desertos e campos, caiu 69% no período, com média anual de 2,3%. Já o Índice Marinho apresentou mudança negativa de 59%, com média de 1,7% ao ano.
Os pesquisadores também observaram diferenças regionais nos percentuais de declínio, conforme a classificação da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos. A América Latina e o Caribe registraram a maior queda, de 95%. A África aparece em seguida, com 80%, e a Ásia e a Região do Pacífico, com 49%. A América do Norte teve declínio de 28%, e a Europa e a Ásia Central, de 23%.
Segundo Andrew Terry, diretor de conservação da ZSL, os índices refletem o recorte de 52 anos analisado e traduzem tanto a capacidade de monitoramento das regiões quanto o momento observado. “Na América do Norte, por exemplo, o declínio ocorrido até os anos 1970 foi intenso, refletindo uma desaceleração nos anos seguintes”, explica.
O relatório não traz dados comparativos com edições anteriores devido ao acréscimo contínuo de novos conjuntos de dados e à ampliação das populações e espécies estudadas. Nesta edição, foram incorporadas informações sobre 967 populações de 295 novas espécies, além da atualização de dados de 669 populações em relação à publicação de 2024.
O estudo também analisou indicadores adicionais, como mudanças no risco de extinção e na própria extinção de espécies, além de transformações na integridade da biodiversidade. Para os autores, a perda de populações se traduz em ameaças à estabilidade econômica, à segurança geopolítica e ao bem-estar humano. “A estrutura da vida que sustenta a nossa prosperidade está se desfazendo a um ritmo sem precedentes, impulsionando o aumento da desigualdade”, afirma o relatório. Cerca de US$ 58 trilhões do PIB global de 2023 tiveram origem em trabalhos que dependem de alguma forma da natureza.
A diretora-geral do WWF Internacional, Kirsten Schuijt, afirma que os sistemas que impulsionaram o crescimento econômico estão acelerando a degradação da natureza. “Parar e reverter essa tendência exigirá transformações em sistemas inteiros — desde como produzimos energia e alimentos até como financiamos nossas economias”, diz.
O relatório também destaca esforços de conservação que resultaram em estabilidade ou crescimento de metade das populações monitoradas pelo IPV. No Brasil, a população de onças-pintadas na Mata Atlântica cresceu 280% entre 2019 e 2025, após ação coordenada entre governo, terceiro setor e produtores locais. No cenário global, a tartaruga-verde tornou-se, em 2025, a primeira tartaruga marinha a passar da categoria Ameaçada para Pouco Preocupante, após 50 anos de trabalho em mais de 80 países de desova.
Para Helga Correa, especialista em Conservação do WWF-Brasil, os exemplos de recuperação mostram que o declínio da natureza não é inevitável. “Isso exige ações de conservação contínuas e em escala, com proteção e restauração dos ecossistemas e enfrentamento das causas da perda de biodiversidade”, afirma.
Líderes globais voltam a debater caminhos para implementação mais rápida de ações e investimentos na Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP17), em 19 de outubro, em Yerevan, na Armênia. Como contribuição aos debates, o relatório propõe o conceito de ponto de inflexão positivo, apresentado em pesquisa da Universidade de Exeter, na Inglaterra. O conceito se refere ao momento em que um sistema passa para uma condição melhor e a mudança começa a se reforçar, tornando-se mais rápida, mais barata e mais difícil de reverter. “A possibilidade de construir um futuro diferente está diminuindo, mas continua aberta. Transformar sistemas complexos na velocidade e na escala necessárias não será fácil. Ao desencadear pontos de inflexão positivos, porém, isso pode acontecer mais rapidamente do que imaginamos”, conclui Daudi Sumba, diretor de conservação do WWF Internacional.
Análise WeekNews: O contraste entre a queda média de 73% nas populações monitoradas e os casos de recuperação citados no relatório — a onça-pintada na Mata Atlântica e a tartaruga-verde — indica que o declínio não é uniforme nem irreversível. Os números por região, no entanto, mostram que a América Latina e o Caribe concentram a maior perda relativa, de 95%, o que coloca o Brasil em posição central tanto na urgência quanto nas respostas de conservação. A proposta de ponto de inflexão positivo desloca o foco do diagnóstico para a escala das ações, tema que deve pautar a COP17.
Fonte: Agência Brasil.
