
Um estudo da Universidade Federal de Viçosa (UFV) em parceria com a Croplife Brasil, associação que reúne empresas de biotecnologia, melhoramento genético e defensivos agrícolas, estima que as lavouras de soja no país teriam perdas de até 55% na produtividade caso não fossem protegidas contra pragas, doenças e ervas daninhas. A pesquisa foi divulgada em 31 de outubro de 2026.
Os pesquisadores simularam três cenários a partir de quatro doenças — entre elas a ferrugem-asiática e a mancha-alvo —, cinco pragas, como a mosca-branca, e nove plantas daninhas. Com controle ótimo, que garante 80% de proteção, a produtividade por hectare chega a 72 sacas. O controle parcial, de até 40% de proteção, resultaria em 52 sacas, 28% menos que o cenário ótimo. Sem qualquer controle, a produtividade cairia para 32 sacas por hectare.
Segundo o estudo, compensar essas perdas exigiria plantar uma área adicional de 33,5 milhões de hectares, quase o tamanho do estado de Goiás. No cenário sem manejo, a perda média chegaria a 121,3 milhões de toneladas, com valor estimado em R$ 223,5 bilhões. A receita simulada com exportações de soja alcançaria US$ 44,2 bilhões com controle ótimo e recuaria para US$ 26,6 bilhões sem controle, diferença potencial de US$ 17,6 bilhões por safra.
A redução da oferta poderia elevar o preço da soja em até 49%, o que acrescentaria cerca de 0,26 ponto percentual à inflação oficial medida pelo IPCA, por causa do impacto nos preços de produtos como óleo, leite e ovos. “Essa redução da produtividade da soja, lá no produtor, acaba tendo um impacto significativo no preço da soja e na disponibilidade dos produtos no mercado final, por exemplo, de óleo de soja e do farelo, que é um subproduto da soja. Consequentemente, ia ter uma mudança no preço das carnes de porco, de frango, porque tudo isso está na cadeia de produção da soja”, afirma a pesquisadora da UFV Ana Carolyne Carvalho.
O levantamento considera quatro métodos de controle fitossanitário: biotecnologia, como os organismos geneticamente modificados; melhoramento genético; bioinsumos; e defensivos químicos, além do manejo integrado, que combina dois ou mais desses métodos. O coordenador de Sustentabilidade da Croplife, Pedro Duarte, diz que o setor tem preocupação com a segurança dos químicos usados na proteção das lavouras. “Para que um produto seja aprovado no Brasil, um defensivo químico passa por muitos estudos. Há um investimento muito grande do setor para poder garantir que aquele produto aprovado tenha a segurança, quando aplicado dentro das recomendações”, afirma.
O uso de defensivos químicos, porém, é controverso. Segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), algumas substâncias usadas no manejo fitossanitário são nocivas ao meio ambiente e à saúde humana. A soja, junto com o milho e a cana-de-açúcar, responde por 76% do consumo de agrotóxicos no Brasil, de acordo com o Ipea. Entre 2005 e 2019, 3.151 novos agrotóxicos foram registrados no país, com apenas 20% considerados de baixa toxicidade. Após a Lei dos Agrotóxicos (Lei 14.875/2023), o ritmo de liberações aumentou: foram 663 novos produtos em 2024, contra 555 em 2023. Dados do Ministério da Saúde divulgados pela ONG Repórter Brasil apontam 73.391 casos de intoxicação por agrotóxico entre 2015 e 2025, sendo 9.729 apenas no ano passado.
Análise WeekNews: O estudo encomendado pela Croplife, entidade que representa fabricantes de defensivos e biotecnologia, quantifica o peso da soja na cadeia alimentar e na inflação, mas o próprio material reconhece que o método químico é controverso. Os números do Ipea e do Ministério da Saúde mostram que a discussão sobre produtividade não se separa da segurança sanitária e ambiental, o que tende a manter o tema no centro do debate regulatório.
Fonte: Agência Brasil.
