
O Brasil registrou 61 casos de sarampo em 2026, a maioria com origem importada, em um cenário de aumento da doença nas Américas e de retrocessos nas políticas de vacinação dos Estados Unidos. Sem transmissão sustentada da doença em território nacional desde 2024, o país mantém a certificação de área livre do sarampo, mas a manutenção desse status tem exigido esforço redobrado das autoridades sanitárias.
O alerta foi feito pelo diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI), Eder Gatti, que relaciona o avanço da doença no continente ao discurso negacionista. Os Estados Unidos vivem o pior surto de sarampo em mais de três décadas, com mais de 4,4 mil casos confirmados e três mortes neste ano. Entre os infectados, 98% não estavam totalmente vacinados.
“O governo americano, além de chancelar discursos negacionistas, tem um secretário de Saúde, que é o equivalente ao nosso ministro, declaradamente antivacina”, afirmou Gatti. “Espero que o mundo não olhe isso como exemplo. Eles estão colhendo frutos. A vacina contra o sarampo é uma vacina de bloqueio. Quem se vacina não pega nem transmite. O descontrole de casos lá está muito relacionado a esse discurso crescente negacionista.”
Em agosto, o governo de Donald Trump reduziu de 17 para 11 o número de imunizantes recomendados para todas as crianças e determinou que a tríplice viral, aplicada desde a década de 1970, fosse separada em três vacinas distintas, uma para cada doença. Trump justificou a medida alegando redução nos casos de autismo, associação já descartada por estudos científicos.
Para o diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, as mudanças têm motivação política, não científica, e são inviáveis: as vacinas individualizadas contra sarampo, caxumba e rubéola não são fabricadas há quase 20 anos. Ele avalia que o dano é imediato, pela confusão gerada na população, já que a Academia Americana de Pediatria continua recomendando as vacinas como antes.
A reconquista do certificado brasileiro, lembrou Gatti, foi possível graças a um trabalho coordenado pelo Ministério da Saúde com estados e municípios. O país perdeu a certificação em 2019, após a reintrodução da doença na região Norte e um surto em São Paulo com 19 mil casos. A cobertura da tríplice viral, que era de 88% na primeira dose e 66% na segunda em 2023, subiu para 96% e 78% em 2024. Neste ano, as taxas preliminares são de 95% e 80%.
A resposta a casos suspeitos envolve confirmação da infecção, isolamento do paciente, monitoramento de contatos e bloqueio vacinal na comunidade. Em São Paulo, quase 4 milhões de doses extras foram aplicadas somente este ano. No Amazonas, que teve 17 casos confirmados em setembro e outubro, foram quase 192 mil doses.
Segundo a Organização Panamericana de Saúde (Opas), o continente já soma mais de 56 mil casos e pelo menos 80 mortes. Cunha destaca que o sarampo é uma das doenças com maior facilidade de transmissão e que a proteção coletiva depende de 95% da população vacinada. “Muitas vezes, a vacina é vítima do próprio sucesso. Ela diminui tanto a doença, que as pessoas acham que não precisam mais se vacinar. A gente chama isso de complacência, que é a falsa sensação de segurança”, disse.
O diretor da SBIm também alerta que decisões americanas reverberam no Brasil, sobretudo pelas redes sociais. Uma delas já produz efeitos isolados: a vacina contra a hepatite B ao nascer deixou de ser recomendada para todos os bebês nos EUA e passou a ser aplicada apenas em crianças de alto risco ou por decisão conjunta de médico e família. “A gente já observa, em especial nas maternidades particulares, pais não autorizando a fazer a vacina da hepatite B ao nascer”, relatou. Segundo ele, adultos infectados têm 90% de chance de não desenvolver doença crônica, enquanto na criança a chance de cronificação é de 90%, com risco de cirrose e câncer de fígado.
Fonte: Agência Brasil.

