
NME.
A banda irlandesa The Mary Wallopers está de volta com ‘Paddywhackery’, terceiro álbum de estúdio que chega em 18 de setembro pelo selo BC Records, e que já vem gerando discussão pelo teor político e pela ousadia em ressignificar um termo historicamente usado para depreciar os irlandeses.
Em entrevista ao NME, o vocalista Andrew Hendy explicou que a palavra ‘Paddywhackery’ sempre foi usada como um ‘porrete’ contra o povo irlandês, mas agora a banda quer tomá-la de volta como algo próprio e militante, diminuindo seu poder insultuoso.
‘Às vezes os próprios irlandeses usam isso para se autoflagelar’, disse Hendy, lembrando que, no início do século 19, artistas irlandeses em Nova York cantavam músicas engraçadas que brincavam com a ideia de irlandesidade, mas depois isso passou a ser visto como cafona. ‘Agora, músicos folk irlandeses têm medo de usar o humor na música.
Queremos mostrar que a expressão irlandesa pode ser séria, pungente, triste e rebelde, mas também pode ser divertida’, completou.
O álbum, gravado em apenas duas semanas com o produtor James Skelly (The Coral), marca uma mudança em relação aos trabalhos anteriores, que se baseavam em canções tradicionais irlandesas. Desta vez, a banda investe em composições próprias, mais pesadas e aceleradas, buscando capturar a energia crua dos shows ao vivo. ‘Acho que chegamos a um ponto em que aprendemos centenas de músicas e poderíamos continuar lançando canções tradicionais, mas, com as turnês, descobri melhor o som que queria para a banda’, explicou Hendy. ‘Muitas dessas músicas são mais pesadas e mais rápidas, e eu estava pensando no público se divertindo mais ao ouvi-las.’
A faixa de trabalho ‘Crowns Of England’ aborda o estranhamento e o deslocamento que os músicos sentem quando estão na Inglaterra. O videoclipe, estrelado por Danielle Galligan (da série ‘House Of Guinness’), mostra uma irlandesa vagando por pubs chamados ‘The Crown’ em Londres, todos repletos de imagens de Winston Churchill.
‘De certa forma, a música aborda os sentimentos de isolamento quando se está longe de casa’, disse Hendy.
‘Especialmente quando se vem de um país colonizado e se vai para o país que colonizou – mesmo que a relação entre Irlanda e Inglaterra esteja muito boa agora, ainda existem esses sentimentos.’ Ele acrescentou que, nos anos 1960, os operários irlandeses sempre bebiam nos pubs chamados The Crown, mas que ‘há algo sobre todos esses pubs na Inglaterra que não conseguem matar a sede pela comunidade que ficou em casa’.
A letra de ‘Crowns Of England’ inclui o verso ‘Eles não sabem se devem aplaudir ou me expulsar de novo’, que, segundo Hendy, reflete a ambiguidade do público inglês em relação às canções rebeldes irlandesas. ‘Muitas pessoas comuns, sem culpa própria, não conhecem a história do que aconteceu entre Grã-Bretanha e Irlanda’, afirmou. ‘Quando cantamos músicas rebeldes em um pub, às vezes as pessoas amam e acham ótimo.
Mas, se cantamos uma música do IRA, alguns podem ficar ofendidos. Para nós, o IRA era pessoas comuns que estavam sendo oprimidas e lutando por direitos iguais em seu próprio país. Mas, nos jornais, o que o povo inglês ouviu sobre o IRA foi uma grande ameaça terrorista de monstros de uma nação estrangeira.’ Hendy completou: ‘As pessoas comuns em todos os lugares são decentes e ótimas.
Mas se o inglês comum soubesse o que aconteceu – os crimes do Exército Britânico, os crimes de Churchill na Índia e em todo o mundo, em países africanos também – eles não estariam tão dispostos a marchar com cruzes de São Jorge e coisas assim.’
A nova música ‘Landlord’s Demise’, lançada como single, é descrita por Hendy como ‘uma canção sobre a queda do império na Irlanda e uma expressão de nosso desdém pela classe dos proprietários de terras’. Inspirada em uma história real de uma mansão desabando sobre seu proprietário aristocrata e no livro ‘Guerilla Days In Ireland’, de Tom Barry, a faixa é dedicada ‘a todos os inquilinos que lutam, em apartamentos degradados e banheiros cheios de mofo, vivendo com medo de outro aumento de aluguel’.
A banda, formada pelos irmãos Charles e Andrew Hendy, originária de Dundalk, Condado de Louth, viu seu perfil crescer graças à energia agressiva de seus shows ao vivo e a apresentações marcantes na TV e na internet. A turnê de apoio a ‘Paddywhackery’ incluirá datas em grandes casas como a Brixton Academy, em Londres, e a 3Arena, em Dublin, além de outras cidades do Reino Unido e Irlanda entre outubro e dezembro.
Em 2025, a banda esteve no centro de uma polêmica no Victorious Festival, em Portsmouth, quando sua apresentação foi interrompida antes mesmo de começar. Organizadores do evento retiraram uma bandeira palestina do palco e cortaram o som do grupo. Posteriormente, a banda foi acusada de liderar um ‘canto discriminatório’, mas divulgou um vídeo que contradizia a acusação, e o festival acabou pedindo desculpas.
Hendy refletiu sobre o episódio: ‘Se você acredita em dizer algo que é certo, deve fazê-lo independentemente. Especialmente como artista, e ainda mais se você se considera politicamente engajado. Você não pode se esquivar de fazer algo por medo de não conseguir um show.’ Ele acrescentou que o festival ‘pareceu muito mal’ com a atitude e que a banda não precisou fazer nada além de divulgar as imagens do ocorrido.
‘Se alguém está tentando encobrir a verdade e está sempre do lado errado da moralidade, eles mesmos se expõem.’
Vários artistas, como The Last Dinner Party, The Architect e Cliffords, cancelaram suas participações no festival em solidariedade ao grupo, e o Vampire Weekend fez uma declaração do palco. Hendy disse que não pediu que ninguém cancelasse, mas que respeita a atitude: ‘Isso mostra que eles se importam mais com o que é certo do que apenas com seu espaço no show. Foi uma sensação muito boa ver que outras bandas cancelaram suas apresentações em apoio à mensagem que estávamos tentando passar.’
Apesar da controvérsia, Hendy minimizou a importância do gesto em comparação com a situação na Palestina: ‘Obviamente, o genocídio ainda está acontecendo na Palestina, então não quero falar muito sobre nós subirmos no palco com uma bandeira, porque é um gesto menor, na verdade. Só queremos mostrar nosso apoio ao povo palestino.
Fonte: NME.
NME.
2026-07-09 08:27:00
