
Levantamento das organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global registrou 134 episódios de violência política durante os 50 dias de campanha do primeiro turno das eleições de 2026, entre 16 de agosto e o último domingo (4). O número equivale a um caso a cada nove horas e representa alta em relação ao primeiro turno de 2022, quando foram contabilizados 121 episódios. A pesquisa, em sua quarta edição, aponta ainda que a violência política foi cinco vezes mais frequente do que no período sem disputa eleitoral, que teve média de uma ocorrência a cada 44 horas.
As mulheres foram as principais vítimas: 70 dos 134 casos (52,2%). Quando se consideram apenas os 102 episódios dirigidos a pessoas candidatas, elas somam 60 vítimas (58,8%), apesar de representarem cerca de um terço das candidaturas. Entre os 70 episódios contra mulheres, 45 envolveram machismo ou misoginia, nove racismo e cinco transfobia. As sete ameaças de violência sexual registradas tiveram mulheres como vítimas exclusivas.
A violência também teve recorte racial. Pessoas negras representaram 44,8% (60) de todas as vítimas. Entre as mulheres, 19 das 70 eram pretas, mais de uma em cada quatro.
A ameaça foi o tipo mais recorrente, com 64 casos, seguida por 33 episódios de ofensa e 19 de agressão física. Foram registrados ainda 11 atentados, cinco casos de criminalização e dois assassinatos — os dois homens, um vereador e um secretário municipal. Os dois assassinatos e dez dos 11 atentados tiveram homens como vítimas. Entre os 32 episódios de violência física (agressões, atentados e assassinatos), as mulheres foram alvo em 21,9% dos casos; entre os 97 de violência simbólica, que incluem ameaças e ofensas, em 61,9% (60 casos).
Os casos ocorreram majoritariamente nas ruas (71), embora o ambiente digital também tenha sido apontado como terreno de agressões sistemáticas. Os estados com mais ocorrências são São Paulo (16), Rio Grande do Norte (13), Minas Gerais (12) e Rio Grande do Sul (10). Quanto aos cargos visados, 54 episódios (40,3%) atingiram pessoas que disputavam ou exerciam cargos federais, e 48 (35,8%) cargos estaduais.
Em 26 episódios (19,4%), o autor identificado era agente público — pelo menos 14 parlamentares ou governantes e sete agentes de segurança. Nenhum dos 134 casos teve punição até o encerramento da coleta. Durante a campanha, ao menos oito casos receberam medidas de urgência, como remoção de vídeos, suspensão de perfis e concessão de medidas protetivas.
A coordenadora de Incidência Política da Terra de Direitos, Gisele Barbieri, afirmou que a violência política de gênero desqualifica e intimida mulheres e classificou o cenário como muito preocupante para a democracia brasileira. Ela defendeu uma força-tarefa do Estado para dar respostas mais rápidas e punições ágeis, com caráter pedagógico. A pesquisadora também destacou que o levantamento mapeia principalmente registros que chegam ao conhecimento público, o que indica subnotificação. “Existe essa subnotificação. Os casos muitas vezes não chegam à opinião pública por causa do medo”, disse.
A coordenadora da Justiça Global, Glaucia Marinho, afirmou que, enquanto os homens são atacados por sua atuação política, mulheres, pessoas negras e pessoas trans enfrentam também o racismo, o machismo e a transfobia que estruturam a sociedade brasileira.
As ameaças de morte e de violência sexual denunciadas nesta quinta-feira (8) pela deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) ilustram o cenário descrito pelo levantamento.
Análise WeekNews: Os dados reunidos pelas duas organizações mostram que a violência política na campanha de 2026 superou a de 2022 e se concentrou de forma desproporcional em mulheres, que são cerca de um terço das candidaturas mas mais da metade das vítimas. O fato de nenhum dos 134 episódios ter sido punido até o fim da coleta, somado ao registro de que quase um quinto dos autores identificados é agente público, indica que as medidas de urgência adotadas durante a campanha interrompem episódios pontuais, mas não alcançam a responsabilização. A subnotificação apontada pela pesquisadora sugere que a dimensão real do problema pode ser maior do que a registrada.
Fonte: Agência Brasil.
