
A escritora Bethânia Pires Amaro, vencedora do Prêmio Jabuti com o livro de contos Ninho, lança seu primeiro romance, Ressalga, que dá voz às profissionais do sexo que marcaram a história da Ladeira da Montanha, em Salvador, entre as décadas de 1950 e 1970. A obra, que será apresentada durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), entre os dias 5 e 9 de agosto, no Centro Histórico da capital baiana, parte da transformação do local, que já foi um dos principais redutos da boemia e da vida noturna da cidade e hoje se encontra em ruínas.
Em entrevista à Agência Brasil, Bethânia explicou que a ideia do livro surgiu de sua vivência em Salvador e da curiosidade em entender como a Ladeira da Montanha, que liga as cidades Alta e Baixa, chegou ao estado atual de abandono. “Eu cresci em Salvador e, morando na cidade, eu sabia que a Ladeira da Montanha havia sido um dos centros da grande boemia na cidade, dos anos 1950 até os anos 1970, principalmente. Isso sobreviveu muito no imaginário da cidade, das pessoas que circulavam por ali. Atualmente a Ladeira da Montanha está completamente desmoronada, fantasmagórica, uma rua realmente bastante arruinada, no sentido mais literal possível, os prédios estão em ruínas. E eu queria entender como tínhamos chegado de um lugar até o outro”, disse.
A escritora decidiu contar essa história sob o ponto de vista das mulheres que trabalhavam no local, profissionais do sexo que, segundo ela, foram invisibilizadas na memória oficial. “Essas mulheres tinham sido o coração daquela região, daquele centro histórico, e não havia nada na voz delas, não havia nada mesmo. Foi uma invisibilização da existência dessas mulheres”, afirmou.
Durante a pesquisa, Bethânia descobriu que o escritor Jorge Amado planejava escrever um livro sobre o cotidiano dessas mulheres, intitulado Mulher Dama, e chegou a encomendar uma série de fotografias de Flávio Damm para o projeto. No entanto, a obra nunca foi escrita devido à repressão que se seguiu ao Ato Institucional número 5 (AI-5), durante a ditadura militar. As imagens ficaram guardadas por mais de 50 anos e só foram exibidas ao público em uma mostra em Salvador, em 2018. “Tudo isso só me mostrou com mais segurança que havia uma história ali a ser contada”, destacou.
A dificuldade em encontrar informações sobre essas mulheres foi outro ponto levantado pela autora. Ela relatou que o material histórico disponível é quase todo produzido sob uma perspectiva masculina, com biografias de grandes personalidades, em sua maioria homens, como as preservadas pela Assembleia Legislativa da Bahia. “Foi por meio das lembranças desses homens e das biografias deles, ali pelos cantos dessas biografias e entrevistas, que fui reconstruindo o mosaico da vida dessas mulheres, porque elas não constaram da historiografia oficial, elas foram realmente apagadas em termos de registro histórico. Só sobreviveram na memória e na voz desses homens que frequentavam aqueles espaços e se lembravam delas”, explicou.
Em Ressalga, Bethânia constrói uma narrativa metaficcional que acompanha três gerações de mulheres na Bahia, com destaque para Graça, que se torna a maior cafetina da cidade. A personagem foi inspirada em histórias reais de prostitutas que atuaram na região, como Maria Pires, conhecida por oferecer 50% de desconto para estudantes, e Maria da Vovó, que comandava um cabaré com até 60 mulheres nas noites mais movimentadas e enfrentava constantemente a violência policial. “A ideia é que o leitor se sentisse transportado para Salvador e para o Brasil dos anos 50, 60, 70, e que a história [do livro] se mostrasse a ele sob esse aspecto, uma história verossímil, que de fato era muito semelhante ao que estava acontecendo no país naquele momento”, disse a escritora.
A obra também é permeada por acontecimentos históricos e personalidades reais, como a morte de Getúlio Vargas, a ascensão de Juscelino Kubitschek, o médium Zé Arigó e o delegado de costumes da capital, Almir Araújo. Bethânia destacou a preocupação em não reduzir essas mulheres às violências que sofreram, mas sim celebrar suas existências e apresentá-las como personagens densas e complexas. “Tradicionalmente, a mulher ficava muito restrita, inclusive na literatura, a [determinados] papéis. Então, ela era a esposa, a amante, a puta. Abordagens que normalmente eram bastante reducionistas. Quando a gente recupera o protagonismo da mulher como aquela que vai contar a sua própria história, devolve a voz a essas mulheres e as coloca no centro de suas próprias narrativas”, afirmou.
A autora, que já teve seu primeiro livro, Ninho, vencedor dos prêmios Jabuti, APCA e Sesc de Literatura, na categoria Contos, participará de bate-papos na Casa Motiva e na Casa Odisseu durante a Flipelô, no sábado (7). Ela expressou sua ansiedade em apresentar o livro em Salvador, especialmente por se passar no Centro Histórico, onde ocorre o festival. “Estou muito ansiosa por essa participação na Flipelô, um festival lindíssimo que já acompanho há vários anos. Em especial, porque Ressalga se passa, em grande parte, no centro histórico de Salvador, exatamente onde ocorre a Flipelô. É literalmente o território de onde a história surgiu”, contou.
Bethânia também ressaltou a influência de autores baianos como Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro em sua formação, que a inspiraram a contar histórias do lugar onde vivia. “A história da Bahia, que é muito celebrada na Flipelô, e a literatura de grandes autores baianos como Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, para citar apenas dois, serviram de grande referência para o meu trabalho. São autores que, quando eu era criança, me mostraram que as histórias ali ao meu redor, do lugar onde eu vivia, também mereciam ser contadas, numa época em que a gente chegava às livrarias e só tinha livro estrangeiro, praticamente. Poder apresentar esse livro na Bahia, no centro histórico, é extremamente especial”, finalizou.
Fonte: Agência Brasil.
