
Cerca de 210 milhões de eleitores dos Estados Unidos vão às urnas nesta terça-feira (3) para renovar todos os 435 assentos da Câmara dos Representantes e 35 das 100 cadeiras do Senado. Na mesma votação, os estadunidenses escolhem governadores em 36 dos 50 estados do país. O resultado das chamadas eleições de meio de mandato definirá o grau de apoio parlamentar ao presidente Donald Trump nos dois últimos anos de seu governo.
O controle do Senado, segundo o diretor da Brazil Office Alliance, Paulo Abraão, confere poder para confirmar ou rejeitar a nomeação de autoridades e juízes. De acordo com o especialista, se os republicanos mantiverem as duas Casas, Trump terá condições políticas mais favoráveis para avançar sua agenda, embora isso não elimine divergências dentro do próprio partido.
A disputa ocorre em meio a questionamentos de Trump sobre a segurança do sistema eleitoral americano. Em 2020, ao perder para Joe Biden, ele acusou a eleição de fraude sem apresentar provas. Na última semana, questionado por jornalistas, afirmou que respeitaria o resultado “se forem eleições honestas”.
O pleito também é acompanhado com atenção no Brasil, diante de uma relação bilateral marcada pelo tarifaço e por atritos com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Um eventual enfraquecimento político de Trump, caso os republicanos percam a maioria em uma ou nas duas Casas do Congresso, tende a repercutir nesse cenário.
Para Abraão, os democratas podem ampliar a investigação sobre a atuação da família Bolsonaro nos Estados Unidos, expondo conexões com o governo Trump. “Parlamentares democratas já vêm cobrando explicações [sobre supostas interferências de Trump no Brasil]. O ponto central seria esclarecer se instrumentos do Estado americano foram utilizados para favorecer um grupo político estrangeiro, por quais razões e sob quais fundamentos”, argumentou.
O especialista aponta que uma investigação parlamentar poderia apurar a denúncia contra a Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, de favorecer o candidato Flávio Bolsonaro durante a eleição no Brasil. A redução do alcance nas redes das contas ligadas ao candidato Lula foi justificada pela big tech como “problemas técnicos”.
“Uma mudança no controle do Congresso pode transformar cobranças, hoje expressas em cartas, em investigações com maior capacidade de produzir provas e exigir respostas. Isso não é automático, depende das prioridades da nova maioria e pode enfrentar resistência e disputas judiciais”, afirmou o também professor de direito.
Nas últimas semanas, congressistas democratas têm questionado a Casa Branca por meio de cartas, desde a ação da Meta nas eleições brasileiras até a decisão de revogar o visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Na última quinta-feira (30), os democratas cobraram explicações sobre o envolvimento da Casa Branca na fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil, apesar de a Justiça brasileira ter proibido a saída do parlamentar. Flávio responde a processos por lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas.
Sobre política externa, há expectativa de que uma vitória democrata promova alguma mudança na postura dos Estados Unidos, em especial em relação à guerra no Irã. Abraão pondera, no entanto, que a Presidência americana tem ampla margem de ação nessa área, ainda que sem maioria no Parlamento. “Um Congresso mais independente pode aumentar os custos políticos, fiscalizar decisões e disputar recursos, sem comandar a diplomacia”, destacou.
Análise WeekNews: O resultado desta terça-feira interessa ao Brasil para além da política interna americana. Como o Congresso tem atribuições de confirmação de autoridades, fiscalização e investigação, uma mudança na correlação de forças entre republicanos e democratas tende a alterar o ambiente das cobranças hoje feitas por carta à Casa Branca. A avaliação de Abraão, porém, indica que esse efeito não é automático: depende das prioridades da nova maioria e pode esbarrar em resistência e disputas judiciais. Na política externa, a margem presidencial permanece ampla, o que sugere continuidade na condução da diplomacia mesmo em caso de derrota eleitoral de Trump.
Fonte: Agência Brasil.
