
A Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP) reúne 1.535 unidades que preparam gratuitamente para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e outros vestibulares mais de 58 mil estudantes que cursaram a educação básica na rede pública. A prioridade de atendimento é para pessoas negras, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência e famílias de baixa renda, com renda por pessoa de até um salário mínimo, equivalente a R$ 1.621 em 2026.
A iniciativa busca facilitar o acesso ao ensino superior de jovens e adultos que enfrentam barreiras socioeconômicas, oferecendo uma alternativa a quem não pode pagar um cursinho privado ou conciliar os horários tradicionais de estudo com o trabalho diário.
Entre os candidatos do Enem 2026 estão 13.821 pessoas com mais de 60 anos. Um deles é Raimundo dos Santos Nascimento, de 62 anos, que frequenta um cursinho popular na Ceilândia, no Distrito Federal. Carioca radicado em Brasília há 16 anos, ele viveu cerca de seis deles em situação de rua no Plano Piloto. A retomada começou no Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP) e na Escola de Meninos e Meninas do Parque (EMMP), no Parque da Cidade Sarah Kubitschek, onde concluiu o ensino fundamental. Agora, seu objetivo é uma vaga em psicologia na Universidade de Brasília (UnB).
“Em 2020, eu fiz a prova do Enem e tirei 640 na redação. Então, eu conheci o Jovem de Expressão e decidi fazer o preparatório. Eu tenho que me formar. Agora, com 62 anos, eu me sinto jovem”, contou.
O cursinho frequentado por Raimundo é o Jovem de Expressão (JEX), com 17 anos de preparação gratuita para o Enem, para o Programa de Avaliação Seriada (Pas) da UnB e para outros vestibulares. A unidade integra a CPOP, que oferece apoio financeiro de até R$ 163,2 mil por unidade selecionada, destinado ao pagamento de professores, coordenadores e apoio técnico-administrativo e à compra de materiais.
Segundo o coordenador pedagógico do projeto na Ceilândia, Rodrigo da Silva Soares, o recurso do Ministério da Educação (MEC) é decisivo para a continuidade do trabalho. “Por mais que sejamos um cursinho voluntário, isso envolve custos. E ter o recurso do MEC que vem para a gente fortalece muito a continuação do trabalho”, afirmou. Ele explica que o dinheiro cobre desde a gestão até o apoio ao voluntário, como passagem, lanche e saídas de campo.
A rede conta com mais de 21 mil educadores e equipes de apoio pedagógico em todo o país. Na unidade da Ceilândia, a psicóloga Yasmin Moreira foi contratada para ajudar os estudantes a lidar com a ansiedade antes das provas, a sobrecarga de estudos e o medo da reprovação, por meio de escuta ativa e rodas de conversa, de modo a evitar o abandono do cursinho diante das dificuldades cotidianas ou da necessidade imediata de renda.
A apoiadora pedagógica Maria Paula Cândida Reis faz a ponte entre a estrutura do cursinho e as necessidades dos alunos, organizando simulados e aulões de revisão. “Nosso cursinho não é focado no conteúdo porque cada um tem sua experiência, sua vivência e a Ceilândia é um território muito rico em saberes muito valiosos. E poder compartilhar na turma, entre eles, que têm idades muito diferentes, é legal”, disse. “Educação transforma. Muda trajetórias. Eu consigo ver a importância deste trabalho, que parece tão pequenininho, tão formiguinha, mas o estudo tem um impacto muito grande na vida das pessoas, principalmente do pessoal da periferia”, avaliou.
A diarista Márcia Regina Carvalho Damasceno Dias, que havia parado de estudar há 20 anos, voltou à sala de aula por incentivo da filha, hoje na faculdade. Mesmo com a dupla jornada de segunda a sábado, ela mantém o plano de cursar nutrição. “Fiz o Enem no ano passado. Infelizmente, não tirei a nota que eu queria. Neste ano, cheguei já no finalzinho antes de fazer a prova. Mas tem sido muito bom. É um momento divisor de águas, porque estou com a expectativa lá em cima”, relatou.
Na mesma turma está a caixa de supermercado Gilmara Pereira Braga, de 47 anos, que concluiu o ensino médio em 2000. “O cursinho me oferece um conhecimento amplo muito importante. Quando eu cheguei aqui, tinha pavor de matemática. O medo foi embora quando falei com o professor, que é muito bom”, contou. Ela quer entrar na UnB e pretende trabalhar com educação especial. “Muitas crianças são excluídas da educação e não têm possibilidade de evoluir. Acho importante ter profissionais que olhem para crianças especiais”, refletiu.
O produtor musical e DJ Miguel Lacerda, de 20 anos, estuda no Jovem de Expressão há dois anos e destaca a importância da preparação para disputar uma vaga em ampla concorrência. “Como uma pessoa periférica, eu não teria tantas possibilidades econômicas de acessar outros cursinhos. Por isso, esse aqui é extremamente importante pra mim. Além dele estar perto, aqui na minha periferia, o cursinho consegue me dar o conhecimento que eu preciso para ingressar pelo Enem”, afirmou.
Aluna beneficiária há dois anos, Azize Quemel, de 28 anos, considera oportuna a existência de políticas públicas que custeiem iniciativas voluntárias de apoio a adultos historicamente expostos à falta de recursos materiais, sociais e de acesso a direitos básicos. “O Jovem de Expressão permite aos moradores de periferia estarem nesses espaços porque um cursinho pré-vestibular é caro e, por isso, só vemos filhos de patrões fazendo. Mensalmente, não era viável para a gente”, disse.
Análise WeekNews: A rede descrita na reportagem reúne, ao mesmo tempo, repasse financeiro por unidade, apoio pedagógico e acompanhamento psicológico, o que indica uma estrutura de suporte que vai além da simples oferta de aulas. O
Fonte: Agência Brasil.
