Disputa entre China e EUA pelo futuro da IA: entenda os modelos rivais de governança

Disputa entre China e EUA pelo futuro da IA: entenda os modelos rivais de governança
Fonte da imagem: Agência Brasil


A corrida pela liderança em inteligência artificial (IA) ganhou um novo capítulo geopolítico, com Estados Unidos e China apresentando modelos opostos de governança e influência sobre a cadeia produtiva da tecnologia. Enquanto Washington aposta em um sistema fechado, baseado em “parceiros confiáveis”, Pequim defende uma abordagem aberta, com a participação de todas as nações. As iniciativas, batizadas de Pax Silica e Waico, respectivamente, têm repercussões diretas para países como o Brasil, que busca uma soberania digital sem se alinhar integralmente a nenhum dos dois polos.

A Pax Silica, lançada pelo governo de Donald Trump em dezembro de 2025, é uma aliança que reúne atualmente 23 países e a União Europeia. O grupo, que boicota iniciativas multilaterais na ONU para regular a IA, busca coordenar uma “ordem econômica duradoura” que sustente uma era de prosperidade impulsionada pela IA entre os países parceiros. Entre os objetivos declarados estão garantir a segurança no acesso a insumos e matérias-primas, abordar vulnerabilidades na cadeia produtiva e explorar investimentos conjuntos. Os membros iniciais incluíam Japão, Israel, Reino Unido, Emirados Árabes Unidos, Singapura, Países Baixos e Austrália. Em junho deste ano, ingressaram na parceria Argentina, El Salvador, Chile, Costa Rica e Panamá, além de Índia, Catar e Filipinas.

EUA - Pax Silica is the Department of State’s flagship effort on AI and supply chain security, advancing new economic security consensus among allies and trusted partners. Foto: Divulgação
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Para Ettore Arpini, fundador da organização Plures e especialista em governança de IA, a iniciativa americana favorece poucos países aliados, “deixando o restante do mundo a ver navios”. Arpini alerta para os riscos da dependência tecnológica: “Digamos que o carro-chefe da economia de um país dependa do modelo de IA do Chat GPT, por exemplo. Pode ser que, de uma hora para outra, uma decisão de Washington bloquei o acesso a essa IA. Isso pode congelar a economia inteira do país, que fica totalmente dependente e nas mãos, nesse caso, dos EUA ou dessas poucas big techs”.

Em contrapartida, a China lançou em julho deste ano a Organização Mundial de Cooperação em IA (Waico), com sede em Xangai. A Waico é aberta a todos os países e já conta com a assinatura de 29 nações, incluindo o Brasil. Também assinaram a declaração de criação Rússia, Indonésia, Cazaquistão, África do Sul, Quênia, Etiópia, Moçambique, Venezuela, Cuba, Omã e Paquistão, entre outros. A proposta chinesa defende o desenvolvimento de IA de código aberto, permitindo que qualquer empresa ou organização utilize a tecnologia livremente, sem contratos pagos, como ocorre com as big techs americanas como OpenAI, dona do ChatGPT, Anthropic, dona do Claude, e Google, dono do Gemini.

A diferença entre os modelos é central. Uma IA de código aberto pode ser examinada, estudada, modificada e redistribuída por qualquer pessoa ou organização, que pode usar o software em servidor próprio, sem enviar informações a terceiros. Já a IA de código fechado, de propriedade de uma empresa, só pode ser usada mediante autorização do proprietário, geralmente por meio de pagamento. Nesses casos, o preço pode ser alterado ou o acesso cortado de uma hora para outra, como destacou Arpini.

Signing ceremony of the agreement establishing the World Artificial Intelligence Cooperation Organization. Shanghai, 16 July 2026. Foto: Divulgação
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O professor Sérgio Amadeu da Silveira, da Universidade Federal do ABC (UFABC), especialista em tecnologia e sociedade, avalia que a iniciativa chinesa pode trazer ganhos para países que ainda não desenvolveram uma IA de ponta. No entanto, ele pondera que os demais países, como o Brasil, precisam desenvolver sua própria infraestrutura local para processar a IA e poder se beneficiar da oferta chinesa. “Se a gente não desenvolver capacidades aqui dentro e, principalmente, infraestruturas nossas, a gente não vai conseguir nem se apropriar do conhecimento [disponibilizado pela China via IA com código aberto]”, comentou.

A declaração oficial da Waico destaca que a governança global da IA deve ser promovida por todos, com o objetivo de “reduzir e eliminar barreiras técnicas” e orientada ao desenvolvimento sustentável. O documento afirma que o Sul Global deve desenvolver tecnologia e serviços de IA com base em suas próprias condições nacionais, ajudando o Sul Global a realmente entrar em contato e aplicar a inteligência artificial e a promover o desenvolvimento inclusivo. No discurso de lançamento, o presidente chinês Xi Jinping enviou recados indiretos aos EUA, afirmando que a “segurança nacional” de um país não pode ser alcançada em detrimento da segurança dos outros. “O desenvolvimento da IA não deve ser uma atuação solo de um único país, mas sim uma sinfonia de cooperação global”, disse.

Para Arpini, a iniciativa chinesa vai na contramão da lógica americana. “Em vez de concentrar o acesso em quem é já é aliado confiável, o posicionamento da China é de abrir os modelos, acumular aliados e fazer uma governança global com todos os países que quiserem participar. Tudo isso alegando que essa é uma tecnologia transformadora e que precisaria ser entendida como um bem comum”, afirmou. Os especialistas também apontam que o interesse da China é comercial, além de geopolítico, pois Pequim pode ganhar com a oferta de infraestrutura para os países que adotarem a IA de código aberto. “O Brasil tem que pagar uma assinatura para rodar o Chat GPT. Com a iniciativa Waico, a gente pode rodar um modelo local, aberto, desenvolvido na China. Para Pequim, será interessante a partir do momento que a gente use infraestrutura e chips que a China proveria, e não os EUA”, explicou Arpini.

O governo brasileiro, por sua vez, tem afirmado que o país não pode ficar dependente de nenhum modelo, seja chinês ou ocidental, defendendo o diálogo com todas as iniciativas para alcançar uma soberania digital brasileira. A posição coloca o Brasil em uma posição de equilíbrio entre as duas potências, buscando aproveitar as oportunidades de cada lado sem se submeter a nenhum deles.

Fonte: Agência Brasil.

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