Arte como resistência: ativista que nasceu com HIV transforma estigma em obra e acervo

Arte como resistência: ativista que nasceu com HIV transforma estigma em obra e acervo
Fonte da imagem: Agência Brasil

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Micaela Cyrino, paulistana de 30 e poucos anos, vive com HIV desde o nascimento, contraído por transmissão vertical. Ela pertence à primeira geração de crianças infectadas no início da epidemia de aids, quando ainda não existiam protocolos eficazes de prevenção nem acesso amplo ao tratamento. Aos seis anos, perdeu a mãe para a doença. Após o diagnóstico, foi encaminhada para um abrigo destinado a crianças vivendo com HIV, onde permaneceu até os 18 anos. Lá, segundo ela, construiu sua verdadeira família, formada por outras crianças, educadores e funcionários.

Cresceu em meio aos primeiros tratamentos contra o HIV, marcados por medicamentos pouco adaptados para crianças e regimes extremamente pesados. Também conviveu com a morte de muitos amigos do abrigo, experiência que marcou profundamente sua adolescência. Apesar das dificuldades, recebeu formação em artes desde cedo, estudou Moda e depois Artes na Faculdade Santa Marcelina. Paralelamente, ainda adolescente, iniciou sua atuação no movimento de pessoas vivendo com HIV ao decidir revelar publicamente sua sorologia por meio de uma peça de teatro apresentada em sua escola.

Em 2008, ajudou a fundar a Rede Nacional de Jovens Vivendo com HIV, que mais tarde se expandiu para a América Latina. Sua atuação incorporou também as pautas do feminismo e do movimento de mulheres negras. Atualmente, concentra sua militância na produção artística. Desenvolve performances, pinturas e intervenções urbanas que discutem HIV, estigma, negritude e a indústria farmacêutica. Tem obras integrando acervos da Pinacoteca de São Paulo e do Museu da Diversidade.

Micaela vê o estigma como um dos principais obstáculos da resposta ao HIV e defende que o tema deixe de ser tratado como um segredo. Prefere uma militância baseada na arte, no acolhimento e no diálogo, em vez do confronto permanente. Depois de crescer cercada pela expectativa da morte, afirma que seu maior projeto hoje é aprender a envelhecer e imaginar um futuro longo para si mesma.

A trajetória de Micaela foi tema do programa Viva Maria, da Rádio Nacional, que destacou como a arte transforma a vivência com HIV em resistência. A reportagem original foi publicada em 30 de julho de 2026, com produção de Georgia Niara. A artista segue como referência na luta contra o estigma e na promoção dos direitos das pessoas vivendo com HIV.

O trabalho de Micaela Cyrino mostra que é possível ressignificar a dor e a perda por meio da criação artística, ocupando espaços institucionais e provocando reflexão sobre temas sensíveis. Sua história é um testemunho de superação e de como a arte pode ser ferramenta poderosa de transformação social.

Fonte: Agência Brasil.

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