
Bahia, Botafogo e Internacional são os três finalistas da categoria Futebol Feminino Contra o Feminicídio do Prêmio TV Brasil Petrobras Para Elas, que busca reconhecer iniciativas de clubes da elite do futebol feminino no enfrentamento ao assédio e à violência de gênero. Os nomes foram divulgados nesta segunda-feira (2). O vencedor será anunciado em cerimônia marcada para 15 de novembro, no Museu do Futebol, em São Paulo, quando também serão conhecidos os ganhadores das demais categorias da premiação.
A escolha dos finalistas passou por um júri formado exclusivamente por mulheres, entre jornalistas, comunicadoras, personalidades e profissionais que acompanham a modalidade ou atuam em pautas ligadas à igualdade de gênero. A composição reuniu experiências e pontos de vista distintos para avaliar as iniciativas tanto pelo olhar esportivo quanto pela relevância social.
O tema tem respaldo em dados. Segundo o estudo “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgado em março deste ano, 1.568 mulheres foram mortas em crimes de gênero ao longo de 2025 — um assassinato a cada cinco horas e 36 minutos. O número é 4,7% superior ao de 2024. A maioria das vítimas é negra (62,6%), concentrada sobretudo na faixa dos 30 a 39 anos (28,3%). Ainda conforme a publicação, entre os casos registrados de 2021 a 2024 (5.729), 66,3% ocorreram dentro da própria casa da vítima e mais de 80% foram cometidos pelo parceiro íntimo atual (59,4%) ou antigo (21,3%). Os dados são coletados a partir de boletins de ocorrência junto às Polícias Civis.
O Bahia aderiu no início da temporada à campanha “Feminicídio Zero”, da Secretaria de Políticas para as Mulheres do governo estadual. Antes do jogo contra o Galícia, na Arena Fonte Nova, em Salvador, pela terceira rodada do Campeonato Baiano masculino, foram exibidas faixas de conscientização e os jogadores entraram em campo com uma camisa roxa idealizada pela campanha. Do lado de fora do estádio, uma unidade móvel ofereceu acolhimento e orientações sobre serviços de proteção.
No Brasileirão masculino, o clube lançou a ação “Terceiro Tempo”, em parceria com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e a agência Propeg, para alertar sobre o aumento dos casos de agressão de gênero com base no estudo “Futebol e Violência contra a Mulher”, também do FBSP. Segundo a pesquisa, em dias de jogo os registros de ameaças sobem 27,4% e os de lesão corporal decorrente de violência doméstica crescem 28,8%. Após a partida diante do Internacional, em 30 de agosto, na Fonte Nova, um grupo de mulheres permaneceu na arquibancada leste do estádio, onde um letreiro exibiu a frase: “Hoje, ficar no estádio é mais seguro que em casa”.
O Botafogo mantém desde 2022 o projeto “A Hora Delas”, voltado à valorização da presença feminina no futebol. O Estádio Nilton Santos se tornou o primeiro do Rio de Janeiro a ter um posto para receber, durante os jogos, denúncias de assédio e violência de gênero, com apoio da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) e do Juizado Especial Criminal (Jecrim). O clube realiza treinamento com funcionários que atuam nas partidas e com as equipes de segurança terceirizadas. O nome do projeto foi estampado na camisa especial usada contra o Remo, na última quarta-feira (28), no Mangueirão, em Belém, pelo Brasileirão masculino — uniforme alusivo ao Outubro Rosa, com listras verticais rosas e brancas inspiradas na árvore japonesa sakura.
Em 30 de novembro do ano passado, no jogo contra o Corinthians na Neo Química Arena, em São Paulo, os dois times se uniram em uma iniciativa em que os números nas costas dos atletas foram redesenhados a partir de radiografias reais de mulheres agredidas. Na barra frontal da camisa, a pergunta “quem matou?” aparecia acompanhada dos nomes de mais de 40 vítimas de feminicídio.
O Internacional afirma ser o primeiro clube brasileiro a ter uma sócia mulher: Maria Von Ockel, em 2 de abril de 1918. Em 2025, o Colorado aderiu ao movimento “Banco Vermelho”, instalando na área do Beira-Rio, em Porto Alegre, um banco tingido como forma de protesto visual e reflexão, no qual os visitantes podem deixar mensagens de apoio e de combate à violência de gênero. A iniciativa tem origem na Itália e simboliza o sangue derramado pelas vítimas de feminicídio.
Em abril deste ano, o Museu do Inter recebeu o evento “Mulheres na Arquibancada e o Combate ao Feminicídio”, que permitiu ao público acompanhar relatos de vítimas de assédio e violência de gênero e palestras de especialistas sobre o enfrentamento ao crime. A promoção foi do núcleo feminino da Guarda Popular, uma das principais torcidas do time gaúcho, com apoio do clube. Na decisão do último Campeonato Gaúcho masculino, em 8 de março, Inter e Grêmio entraram em campo com mensagens de combate à violência contra a mulher, destacando o número 181, do Disque-Denúncia. Antes de a bola rolar, o telão do Beira-Rio apresentou o placar simbólico de 20 a 0, referente aos registros de feminicídios no Rio Grande do Sul em 2026 até aquele momento, dentro da campanha “Não Maquie, Denuncie”, do governo estadual.
Análise WeekNews: As três iniciativas finalistas combinam ações pontuais em dias de jogo com estruturas permanentes, como postos de denúncia e campanhas contínuas de conscientização. O recorte da premiação indica que os clubes passaram a tratar a violência de gênero como pauta própria do ambiente esportivo, e não apenas como tema externo ao futebol
Fonte: Agência Brasil.
